
Esse álbum de estreia é um mergulho nas profundezas de uma jornada pessoal, repleta de tesão, decepções e resiliência. Um cd que só poderia nascer de alguém que teve que se perder para se encontrar – e se perder novamente.
Entre a Perda e a Coroa
“Amar é foda, mas eu tô é fora. (…) Olha pra minha cabeça, is my crown. (…) Mano, não estou de bobeira, sou puta, mas não sou uma puta fulera.”
O verso de “Lost” é quase um resumo do álbum inteiro. No meio do caos emocional, da confusão entre amor e posse, sexo e poder, Maxxx Zima faz um anúncio: ela se perdeu, mas encontrou algo maior—encontrou sua coroa. E não qualquer coroa, mas a de uma drag, uma rainha, uma queen das raparigas.
Ouvindo “Lost”, entendi por que esse título não poderia ser outro. Não há vitória sem dor, não há ascensão sem queda. O que poderia ser apenas mais um registro sobre términos e autodescoberta se transforma em um manifesto de identidade. Aqui, ser drag não é uma estética, mas um renascimento.
Pra Chamar o Marginal
A intensidade do álbum é temperada com doses generosas de liberdade e deboche. “Chama o Marginal”, minha favorita, é um estouro de energia. Maxxx Zima sabe exatamente o que está fazendo quando coloca um beat pulsante para embalar versos que escorrem ousadia.
A música se encaixa na tradição do pop que provoca, que incomoda, que chama para dançar, mas também para questionar. Quem é esse marginal que ela chama? Talvez sejamos nós, vivendo à margem dos desejos que não ousamos assumir. Talvez seja a própria artista, assumindo sua marginalidade no cenário musical e transformando isso em força.
E se o álbum fosse uma casa, “Chama o Marginal” seria a sala de festas. Mas há outros cômodos.
Entre Gemidos e Gritos
Nem só de libertação vive “Queen das Raparigas”. Ele também é um álbum de angústia. “Fuck This Boy” é o clássico momento da balada onde você encontra seu ex e precisa lembrar a si mesma que ele não merece nem seu desprezo. “I Just Need a Time” é a confissão de quem quer se curar, mas ainda sangra.
Mas se tem algo que esse álbum não faz é se afundar na tristeza. Maxxx Zima pode estar machucada, mas ela transforma dor em dança.
Os beats animados de “Loira do Chevette” e “Piroca Grossa” (que, só pra deixar claro, é +18, viu gente?) são provas de que se for pra sofrer, que seja com uma pista lotada e uma cachacinha -nada de leve. Entre as batidas marcantes, há um senso de liberdade que grita: o corpo pertence a quem o habita, e ele pode gozar, pode rebolar, pode se perder e se encontrar quantas vezes quiser.
A Rainha em Construção

Maxxx Zimma não se fez da noite para o dia. Ela nasceu Kelvin Max, em Campina Grande, terra quente e cheia de ritmos, onde crescer como um artista queer não é das tarefas mais fáceis.
Desde criança, a música esteve presente. O pai, da banda Caju com Sal, a irmã, cantora de coro. Mas foi no universo drag que encontrou sua voz e sua verdadeira coragem. Inspirada por Pabllo Vittar e Potyguara Bardo, ela percebeu que poderia ser tudo o que quisesse. Mas ser tudo, especialmente no interior do Nordeste, tem um preço.
“No geral, é difícil. Ser cantor é difícil. Mas preciso dizer que, especificamente, em minha cidade, ser drag, cantora e ganhar reconhecimento é impossível”, confessa.
Mesmo assim, a impossibilidade nunca foi um fator limitante. Maxxx Zima é teimosa, e a teimosia faz rainhas.
A Próxima Coroa
O próximo álbum já está em produção, e, segundo a própria artista, será algo completamente diferente. Pop, sofrência, melodias envolventes. Influências de Urias, Alcione e Potyguara Bardo prometem uma nova era.
E enquanto esse novo reinado não chega, seguimos com “Queen das Raparigas” como trilha sonora. Seguimos nos perdendo e nos encontrando, porque é isso que rainhas fazem.

SOBRE O COLUNISTA:

João Alfredo Motta
Poeta, Jornalista e Especialista em Comunicação Política.@afredomotta_








