Patricktor4: O alquimista tropical que levou o Brasil às pistas do mundo concede entrevista exclusiva ao Papo Pop

Pioneiro na fusão de ritmos tropicais e periféricos, o DJ e produtor baiano celebra 20 turnês internacionais e fala ao Papo Pop sobre sua trajetória, curadorias e o futuro da música brasileira no mundo.

Com quase três décadas de carreira, duas dezenas de turnês internacionais e uma presença marcante nas pistas de quatro continentes, o DJ e produtor baiano Patricktor4 é um dos nomes mais inquietos e inventivos da música brasileira contemporânea. Radicado atualmente em Aracaju, ele se consolidou como um verdadeiro embaixador da sonoridade tropical, levando o calor, a diversidade e a pulsação do Brasil para festivais, clubes, olimpíadas e eventos culturais de prestígio ao redor do planeta.

Foto: SILLA CADENGUE

Fundador da icônica festa Baile Tropical, que desde 2010 já passou por mais de 14 países e ultrapassou a marca de 190 edições, Patricktor4 construiu uma carreira pautada pela fusão ousada entre ritmos periféricos brasileiros, batidas afro-latinas e tendências eletrônicas globais. Seu trabalho vai muito além das pickups: é também radialista, curador, pesquisador musical e criador de pontes culturais. Foi ele quem idealizou e dirigiu rádios públicas, como a Frei Caneca FM em Recife, além de assinar curadorias para projetos como o Tropical Transforma, da cervejaria Devassa.

Em entrevista exclusiva ao Papo Pop, Patricktor4 revelou como sua trajetória nômade, entre Bahia, Pará, Pernambuco e Sergipe, moldou sua identidade musical.

“Morar em várias cidades me deu o maior mérito que tenho como pessoa: enxergar o mundo de forma mais diversa e plural. Os amigos que fiz e a cultura que absorvi se refletem em tudo que toco e produzo”, afirma.

A missão de reinventar o tropical

Ao falar sobre sua busca por novas combinações sonoras, Patricktor4 deixa claro que a música tropical, para ele, é um território infinito.

“Sempre me interessei pela música que vinha da caixa de som da feira, do barzinho mais simples, do rádio do vizinho. Entendi que o ‘tropical’ é um guarda-chuva que abriga a música brasileira, nordestina, latino-americana e africana. É a música que tem sabor, cheiro, gosto de gente.”

Essa inquietação o levou a rejeitar o olhar exotizante da chamada “World Music” e a reposicionar a música do Sul Global no centro da narrativa. O Baile Tropical, criado ao lado do DJ Bernardo Pinheiro, nasceu com esse espírito: colocar no mesmo caldeirão cumbia, brega, zouk, samba e arrocha, temperados por beats eletrônicos e texturas urbanas.

Foto: SILLA CADENGUE


20ª turnê internacional e novos voos

Em 2025, Patricktor4 celebra sua 20ª turnê internacional com passagens por Portugal, França, Alemanha e Espanha. Além dos shows, ele também atua como curador da residência artística Season Brasil–França 2025, no centro cultural Trempo, em Nantes, conectando artistas brasileiros e franceses em experiências que unem música e gastronomia.

Para ele, tocar fora do Brasil é mais do que uma conquista profissional: é um exercício de transformação pessoal.

“Sair do Brasil ajuda a entender o Brasil e a nós mesmos. É nas trocas com públicos e culturas diferentes que amadurecemos como artistas e como seres humanos.”

Entre o paredão e o mundo

No currículo, Patricktor4 acumula apresentações em eventos como o Rec Beat, Coquetel Molotov, Festival Bananada, Brasil Summerfest (Nova York), além de duas edições dos Jogos Olímpicos (Rio 2016 e Londres 2012). Seja diante de milhares de pessoas ou em um bar intimista, ele busca a mesma conexão intensa com o público, como nas memoráveis noites em Seul, no Porto ou até em uma final de campeonato de hóquei na Eslováquia.

E se engana quem pensa que seu olhar está voltado apenas para o passado. Entre suas atuais obsessões estão o bregafunk, o batidão romântico e a produção contemporânea do Norte e Nordeste. Nomes como VHOOR, KLAP, LEOA e Gil Bala estão no seu radar, provando que a música popular periférica continua sendo um celeiro inesgotável de inovação.

Rumo aos 30 anos de carreira

Foto: SILLA CADENGUE

Já em contagem regressiva para celebrar três décadas de estrada, Patricktor4 prepara um álbum autoral e uma turnê especial para 2026. A ideia é revisitar as cidades que marcaram sua trajetória, dividindo com amigos e fãs a energia de uma carreira construída sobre mistura, movimento e reinvenção.

No fim das contas, Patricktor4 não é apenas um DJ. É um cozinheiro sonoro, um contador de histórias dançantes, um alquimista que transforma ritmos em experiências coletivas. E como ele mesmo disse ao Papo Pop, sua missão é simples e infinita:

“Provocar as pessoas a se reconectarem consigo mesmas, celebrando, rebolando, vivendo.”

Confira a entrevista na íntegra:

Início e Identidade

Patrick, pra quem ainda não te conhece: quem é o Patricktor4 por trás das pickups? Como você se apresenta hoje como artista e pessoa?

Patrick é um “jovem coroa” nordestino, baiano, que vive de música e viaja por aí fazendo festas. Meu trabalho é levar som bom pras pessoas, provocar pra que elas dancem, se reconectem consigo mesmas e celebrem a vida.

Você tem uma trajetória marcada por mudanças de cidades, culturas e sons. Como essa vivência nômade, entre Bahia, Pará, Pernambuco e Sergipe, ajudou a moldar sua identidade musical?

Sem dúvida, morar e viajar por tantos lugares é o maior mérito que carrego. Essa experiência me fez enxergar o mundo de forma mais diversa e plural. Cada cidade me deu amigos, histórias e influências que hoje estão no meu repertório. Eu não seria quem sou, e minha música não soaria como soa, se não tivesse vivido em tantos cantos diferentes.

O que te move a continuar experimentando e misturando ritmos tropicais, periféricos e eletrônicos depois de quase três décadas de carreira?

Pra mim, música é combinação de possibilidades. Sempre me encantei com aquele som que vem da caixa da feira, do bar da esquina ou do rádio do vizinho. Essa música popular, cheia de refrões e riffs repetitivos, sempre me habitou. Um dia percebi que “tropical” é um grande guarda-chuva que abarca o que me interessa: música brasileira, nordestina, latino-americana e africana. É um som que tem sabor, cheiro, gosto de gente.

Carreira e Expansão

Quando você percebeu que a música tropical era seu caminho?

Lembro bem: eu morava em Belém e estava mergulhado em músicas do mundo , da América Latina, África, Leste Europeu, música cigana. Mas percebi que havia um olhar eurocêntrico e colonizador nesse rótulo de “World Music”, que colocava tudo fora do eixo EUA–Europa num pacote genérico. Foi aí que entendi que precisava colocar nossa música no protagonismo. Somos uma civilização tropical com uma sonoridade plural e cheia de riqueza.

Em 2010, junto com o DJ Bernardo Pinheiro, criamos o Baile Tropical. Ele trazia a ideia de uma festa com clima de baile, e eu queria misturar tudo nesse caldeirão. Desde então, entendi que ali era um espaço para cozinhar as referências novas que o pop mainstream tanto procura.

Você já atuou como DJ, radialista, curador e produtor. Como equilibra tantos papéis?

Eu me vejo como um cozinheiro: as músicas que toco são pratos que preparo para o público. Seja como curador, radialista ou produtor, no fim tudo converge para isso, a música e seus sabores guiando meu trabalho.

Como é ver seu som se espalhar pelo mundo?

É um prazer imenso. Ver minhas composições e descobertas sendo recebidas por diferentes públicos é uma sensação difícil de descrever. Tanto em grandes festivais quanto em eventos pequenos, a alegria é a mesma: levar música boa e sentir a resposta das pessoas.

Turnês e Palcos Internacionais

O que essas experiências fora do Brasil te ensinaram?

Viajar e tocar fora acelera o amadurecimento. Conhecer novos lugares e públicos muda nossa visão de mundo. Foi nessas viagens que entendi mais sobre questões políticas, preconceitos no olhar sobre a “World Music” e também sobre as semelhanças entre a música nordestina, latina, africana e cigana. Curiosamente, sair do Brasil me ajudou a compreender melhor o Brasil e o que é ser brasileiro.

Qual apresentação ficou marcada na sua memória?

São muitas! Teve uma festa na Eslováquia, logo após a final de um campeonato de hóquei, em que o público só queria ouvir Drum n Bass brasileiro, um dos estilos que toquei no início da carreira. No Porto, em Portugal, depois da Parada do Orgulho LGBT, toquei num bar minúsculo chamado Francisca, lotado e com uma energia incrível. Em Seul, em 2016, fizemos um baile para um público majoritariamente coreano, que amou música brasileira, africana e latina mais tradicional. E, no ano passado, no Festival Coala em Portugal, levei um set 100% de música de paredão nordestino — bregafunk, pagodão e arrocha, e o público foi à loucura.

Curadoria e Pesquisa Musical

Como funciona o seu processo de curadoria?

Curar é fazer uma leitura sensível da cena, conectar artistas, entender o contexto e manter os ouvidos abertos para tudo, sem preconceito. É trabalhoso, mas gratificante. A cada curadoria, nasce um novo Patrick.

Parcerias, Futuro e Cultura

O que vem aí para celebrar seus 30 anos de carreira?

Em 2026 quero lançar um álbum autoral, fazer uma grande turnê internacional e passar por boa parte das cidades onde já toquei no Brasil. Quero celebrar junto com os amigos e reviver momentos importantes. Não é todo dia que se chega a uma marca como essa.

O que ainda te inspira e te desafia na música tropical?

O novo. A música tropical periférica brasileira e afro-latina está sempre se reinventando, trazendo timbres e ideias frescas. Tenho acompanhado de perto o som de paredão, arrocha, bregadeira e batidão romântico, com nomes como VHOOR, KLAP, LEOA, CENTAURA e Gil Bala. É uma cena viva e cheia de tesão.