A cena musical pernambucana, reconhecida historicamente por sua capacidade de promover encontros estéticos improváveis, ganha novos contornos com a ascensão da Jambre, banda que conversou com o Papo Pop nesta terça-feira (25). O nome, escolhido por Antonio Nolasco ainda quando o projeto era uma iniciativa solo, remete à fruta de coloração roxo-avermelhada, sabor adocicado e textura ao mesmo tempo macia e crocante. O símbolo não é aleatório: como a fruta, a Jambre se coloca como uma síntese de contrastes, um organismo que amadurece enquanto combina doçura, intensidade e rusticidade em sua expressão artística.
A formação da banda foi um processo orgânico, quase inevitável. O encontro entre Nolasco e o percussionista Henrique Falcão modificou decisivamente os rumos do projeto, que deixou de ser um trabalho individual para se tornar uma experiência coletiva. Atualmente, a Jambre é composta por Antonio Nolasco (voz e guitarra), Henrique Falcão (percussões), Luiz de Aquino (baixo), Saw Lima (bateria) e Ciro Gonçalves (guitarra), todos nomes conhecidos na cena independente de Pernambuco e detentores de uma trajetória que se entrelaça com a diversidade musical do estado.
A sonoridade proposta pela banda é definida por eles como rock pernambucano, uma expressão que, mais do que rotular, busca dar conta do gesto estético que marca o grupo. Trata-se de um rock que dialoga com a tradição setentista, mas que não se limita a referências globais. Em vez disso, ele se expande por matrizes africanas e indígenas que integram o repertório cultural do Nordeste. No som da Jambre, convivem batuques do Cavalo Marinho, ecos do Maracatu de baque solto, gestos tropicália e pulsações latinas, formando uma tessitura musical que, além de inovadora, evidencia uma relação afetiva com as identidades sonoras que compõem Pernambuco.
Desde 2021, a banda vem ganhando espaço nos palcos do estado e de regiões vizinhas. Apresentou-se em festivais como Rec’n’Play, ExpoRock, Coquetel Molotov Negócios e Pré-AMP, além de ocupar agendas culturais significativas, como o Carnaval do Recife e shows na Paraíba e no Rio Grande do Norte. A circulação constante permitiu à Jambre consolidar uma presença marcante no circuito independente, alimentada por performances energéticas e um repertório que alterna vigor e lirismo.
Em 2025, o grupo lançou seu primeiro EP, Eu Quero Amar de Novo, que marcou uma etapa crucial na trajetória da banda. O lançamento físico, em formato de CD, ocorreu no dia 24 de maio, seguido da distribuição nas plataformas digitais em 13 de agosto. O trabalho, produzido de maneira totalmente independente, contou com o apoio de colaboradores próximos, como o músico e produtor Lucas Reis. Com seis faixas autorais, o EP revela a amplitude estética da Jambre ao transitar por gêneros distintos, como rock, drum n’ bass instrumental, pop e cúmbia, sem deixar de lado os ritmos populares pernambucanos que atravessam sua identidade musical. O projeto também recebeu contribuições de Adri L, nos teclados de “Uma roupa sem estilo”, e Diego Drão, na faixa-título.
A dimensão visual, elemento fundamental no entendimento da estética da banda, foi construída pela designer Natália Amorim, que assinou tanto a identidade visual quanto a capa do EP, em colaboração com a fotógrafa Feane Monteiro. As fotografias de divulgação, produzidas por Ignus (Thalyta Tavares), reforçam a atmosfera sensorial que envolve o projeto.
Durante a entrevista ao Papo Pop, a Jambre reiterou seu compromisso com a experimentação e a preservação das referências culturais que moldam sua obra. O grupo demonstrou que sua missão artística não se limita à criação de um produto musical, mas envolve o desejo de provocar encontros, revelar memórias e ressignificar tradições. Em um cenário onde a música independente disputa atenção e espaço, a banda emerge como um corpo criativo que honra seu território enquanto se projeta para além dele, reafirmando que o rock pernambucano segue vivo, fértil e em constante mutação.






