Festival No Ar Coquetel Molotov celebra 22ª edição com noite histórica de música plural no Recife

Evento lotado reuniu Gaby Amarantos, Zaho de Sagazan, Duquesa, Don L, Shevchenko e uma constelação de talentos nacionais e internacionais em mais de 12 horas de som, cultura e diversidade

O Festival No Ar Coquetel Molotov 2025 transformou o Campus da UFPE, no Recife, em um território de experimentação, potência criativa e encontros memoráveis. No último sábado (6), o evento, que celebra 22 edições e acaba de receber o título de Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco, reuniu milhares de pessoas em uma maratona sonora que atravessou gêneros, gerações e geografias, firmando-se como uma das mais importantes celebrações da música independente no Brasil.

Segundo a diretora Ana Garcia, o êxito da noite reflete a dedicação intensa da equipe.

“Foram muitos meses de trabalho com a equipe inteira dando seu sangue para fazer isso acontecer. A energia foi realmente de celebração e a gente sempre fica impressionado como o público está aqui pela música”, afirmou.

A curadoria primorosa, que preserva o DNA inquieto do festival, aproximou tradições populares, revelações da cena urbana, divas da música pop, beats eletrônicos e grandes vozes da América Latina e da Europa, criando uma tessitura sonora marcada pela pluralidade.

Gaby Amarantos incendeia o palco principal com o “Rock Doido”

Foto: divulgação.

Em sua estreia no Coquetel Molotov, Gaby Amarantos protagonizou uma das apresentações mais aguardadas da noite. Com o espetáculo “Rock Doido”, revisitou suas raízes do tecnobrega e expandiu fronteiras com uma performance intensa e teatral. Gaby também viveu um momento simbólico ao unir Recife e Belém, convidando a poderosa Nega do Babado ao palco. A apresentação ganhou ainda mais força com a participação da Cia de Dança Number One, do Recife.

Hip hop, pop e afrofuturismo com Don L, Urias e Duquesa

Foto: divulgação.

A noite também foi marcada pela força do rap e da arte contemporânea brasileira. Don L, um dos nomes mais influentes do hip hop nacional, apresentou um show guiado por discursos incisivos e poesia urbana.

Logo depois, Urias surpreendeu com o espetáculo do álbum “Carranca”, concebido com estética conceitual e referências profundas à cultura brasileira. A artista recebeu Don L e o cantor e compositor Giovani Cidreira, coautor de faixas do disco.

Mais cedo, a baiana Duquesa atraiu uma multidão e reafirmou seu protagonismo na nova música brasileira com sua fusão de rap, r&b e afrobeat.

Zaho de Sagazan emociona e encerra a Temporada França Brasil

Foto: divulgação.

Entre as atrações internacionais, Zaho de Sagazan arrebatou o público com sua presença dramática e estética eletrônica minimalista, elementos que a posicionam entre os principais nomes da nova geração francesa. Recife foi a primeira parada de sua passagem pelo Brasil, que inclui apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo, como parte do encerramento da Temporada França Brasil 2025.

Frevo, maracatu e tradições pernambucanas em celebração

A força da cultura local ecoou ao longo de toda a noite. O frevo tomou conta do espaço com os Guerreiros do Passo e a Orquestra Popular do Recife, que promoveram um carnaval antecipado.

A abertura dos três palcos refletiu a diversidade do festival. A Concha Acústica recebeu o indie rock da Pelados e do Terno Rei. O Maracatu Feminino de Baque Solto Coração Nazareno emocionou o público ao unir ancestralidade e discursos politizados em um espetáculo vibrante de cores e versos. Enquanto isso, o Palco KMKZE deu início à sua tradicional Roda de Samples.

Protagonismo indígena e performances que ampliam narrativas

Em 2025, o festival apresentou uma iniciativa inédita com a criação da Lista Indígena de Acesso, desenvolvida em parceria com o coletivo Kajuru’nyá Xeké. No palco, a artista paraibana Clara Potiguara uniu Toré, coco de roda e beats eletrônicos em uma apresentação que reafirmou resistência, identidade e ancestralidade.

A presença do artista visual Samuel de Sabóia também emocionou o público ao transformar o palco em um espaço de poesia, gesto e movimento.

Latinoamérica pulsante com Isabella Lovestory, Maiguai e DJ Babatr

A curadoria deste ano voltou seu olhar para a produção latinoamericana contemporânea. Isabella Lovestory, de Honduras, criou um universo maximalista e gótico que mesclou reggaeton, darkwave e pop.

A banda colombiana Maiguai apresentou uma fusão de eletrocumbia e recebeu a pernambucana Sam Silva, fruto de uma residência criativa promovida pelo Selo Sesc.

O venezuelano DJ Babatr, pioneiro do Raptor House, hipnotizou o público do Palco KMKZE com batidas aceleradas e estética pulsante.

Maiguai segue para apresentações em João Pessoa e para um DJ set especial na festa Ultima Cumbia, no Recife.

KMKZE celebra futurismo queer e explosão eletrônica

Com curadoria da IDLIBRA, o Palco KMKZE reafirmou seu papel como vitrine da música eletrônica e urbana. O lendário DJ Marky entregou um set impecável de drum and bass. O Baile da Brota levou o calor do bregafunk, acompanhado por MC Thammy e CIA La Mafia.

A Mamba Negra marcou presença com as DJs Cashu, Kontronatura e Metalluna, reforçando a potência da cena queer e underground. Jovens talentos pernambucanos também brilharam ao misturar beats globais com sonoridades regionais.

Encerramento explosivo com bregafunk e irreverência

O público seguiu firme até o fim para celebrar o bregafunk com Shevchenko e MC Leozinho, pioneiros do estilo, que colocaram todo mundo para dançar. A banda Vera Fischer Era Clubber encerrou a noite com irreverência, energia e performance catártica.

Um legado que se expande

A 22ª edição do Festival No Ar Coquetel Molotov reafirma seu compromisso com a diversidade, a experimentação artística e o protagonismo de vozes plurais. A noite histórica reforça o festival como um dos pilares culturais do Brasil e como plataforma fundamental para a música que transforma, questiona e abre caminhos.