Criado em 2023, o grupo Sambatuqueiras nasce como um marco na história cultural de João Pessoa ao se afirmar como o primeiro bloco de batucada de samba da cidade e o único composto integralmente por mulheres. Sob a regência da musicista Del Santos, o coletivo reúne mais de 30 integrantes movidas por um mesmo pulsar: o amor pelo samba, pelo carnaval e pela cultura popular enquanto instrumentos de expressão, pertencimento e liberdade.

Com uma formação rítmica robusta, que envolve surdos, malacachetas, repiques, agogôs, tamborins e chocalhos, o grupo amplia sua sonoridade ao incorporar harmonias com voz, violão e cavaquinho. O resultado é um som potente, plural e vibrante, que dialoga tanto com o samba tradicional quanto com influências contemporâneas do axé e da música popular brasileira, sem perder suas raízes.

Mais do que um bloco carnavalesco, as Sambatuqueiras se constituem como um movimento de afirmação e resistência. O grupo surge do desejo de criar um espaço seguro, acolhedor e formativo, onde mulheres pudessem aprender, tocar e se expressar livremente através do batuque coletivo. Um sonho antigo que ganhou forma a partir das vivências e inspirações de Del Santos com as Sambadeiras de Olinda, das trocas com as gêmeas Julieta e Stella Mergulhão e de uma trajetória de mais de 12 anos dedicada à cultura popular e às Calungas.
Essa construção coletiva reverbera profundamente na vida das mulheres que integram o grupo. Segundo relatos das próprias integrantes, a experiência com as Sambatuqueiras tem sido transformadora: um reencontro com sonhos adiados, uma descoberta de novas potências, independentemente da idade, e a afirmação da importância de existir um espaço dedicado a elas mesmas, muitas vezes sobrecarregadas pelas responsabilidades do lar, da maternidade e do cuidado com o outro.
O processo criativo e musical do grupo nasce da escuta sensível e da diversidade de referências. As criações se alimentam do gosto pessoal das integrantes, de gêneros característicos do bloco, de clássicos consagrados do samba e do axé, além de hits contemporâneos. Tudo isso é lapidado a partir do conhecimento musical de Del Santos, que une formação acadêmica às vivências em escolas de samba e na cultura popular, construindo uma batucada autoral, consciente e coletiva.
Em um cenário ainda marcado por fortes barreiras de gênero, o grupo também se posiciona como enfrentamento direto ao machismo e à misoginia historicamente presentes nas rodas de samba e nos ambientes musicais. Mulheres instrumentistas seguem sendo raridade e, muitas vezes, expostas a espaços tóxicos, permeados por piadas sexistas e tentativas de deslegitimação. As Sambatuqueiras respondem a isso com presença, união e som, ocupando as ruas, os palcos e os imaginários.
Em 2025, o grupo inaugura sua sede no bairro do Castelo Branco, território simbólico onde aconteceram os primeiros ensaios e onde ecoam as memórias das matriarcas que inspiram sua trajetória. Mais do que um endereço físico, o espaço representa ancestralidade, comunidade, pertencimento e futuro. É ali que as Sambatuqueiras se reconhecem em casa e projetam o sonho de transformar a sede em um polo de expressões multiculturais, com oficinas abertas à população local.
Dentro desse compromisso, o grupo desenvolve o Projeto de Oficinas de Percussão para Mulheres, promovendo formação musical, convivência comunitária e o fortalecimento da presença feminina na percussão e no carnaval paraibano. Os impactos já são visíveis: mudança de postura, empoderamento e orgulho ao se reconhecerem e se apresentarem como Sambatuqueiras, substituindo a timidez por falas firmes e cheias de pertencimento.
A energia que move o grupo se manifesta tanto no som quanto na vivência coletiva. Os ensaios abertos, carinhosamente chamados de Tardezinha com Sambatuqueiras, transformam a sede em um espaço de alegria, celebração e encontro. É ali que mulheres que já enfrentaram inúmeras adversidades se reconectam com sonhos de infância e com suas ancestralidades, fazendo da música um ritual de cura e celebração.
Após três anos de caminhada, as Sambatuqueiras se enxergam como parte viva e em constante construção do samba paraibano contemporâneo. Reconhecendo quem veio antes e abriu caminhos, o grupo se assume como eterno aprendiz, com crescimento paulatino, dedicação e respeito à tradição. Os sonhos seguem pulsando: ocupar cada vez mais espaço na cena cultural paraibana, inspirar outras mulheres a acreditarem que é possível e, quem sabe, descer a Avenida Epitácio Pessoa em uma grande charanga, levando esperança, ritmo e liberdade pelas ruas da cidade.
As Sambatuqueiras são, hoje, uma das expressões mais vibrantes do samba feito na Paraíba. Uma batucada que não apenas se ouve, mas se sente, como um chamado coletivo para que mais mulheres ocupem, criem e transformem a cultura com suas próprias mãos e tambores.







