Em um momento em que João Pessoa vive um amadurecimento sensível de sua produção cultural, o BBS Lab surge não apenas como um espaço físico, mas como um organismo vivo, pulsante e em constante transformação. Idealizado e administrado por Guirraiz e Big Jesi, o laboratório nasceu da percepção de uma lacuna histórica: a ausência de ambientes estruturados onde produtores culturais pudessem criar, gravar, ensaiar e produzir, ao mesmo tempo em que compartilhassem saberes, recursos e experiências. O BBS Lab nasce, portanto, como resposta a uma necessidade coletiva e, ao longo do tempo, se transforma em um ecossistema cultural que extrapola a música e se abre para a dança, o teatro, a performance e outras expressões artísticas.
Em entrevista ao Papo Pop, os sócios revisitam a trajetória do BBS Lab desde seus primeiros passos, quando o espaço ainda operava como um núcleo de produção musical voltado à gravação e à experimentação sonora. Com o passar dos anos, o Lab foi absorvendo novas linguagens e se consolidando como ponto de encontro entre artistas, músicos, produtores e criadores que enxergam na colaboração um princípio ético e estético. Mais do que produzir obras, o BBS Lab passou a produzir processos, diálogos e atravessamentos que reverberam para além de suas paredes.
Inserido em uma cidade em expansão cultural, o BBS Lab atua como uma engrenagem fundamental para iniciativas independentes que, historicamente, enfrentam dificuldades de acesso à infraestrutura, financiamento e visibilidade. Nesse contexto, o espaço oferece suporte técnico, escuta ativa e condições concretas para que projetos autorais floresçam, fortalecendo uma cena artística que se constrói a partir da coletividade e do reconhecimento mútuo. A proposta vai além da lógica tradicional de estúdio: trata-se de um ambiente onde a criação é compartilhada, tensionada e potencializada pelo encontro.
Durante a conversa, Guirraiz e Big Jesi também fazem uma leitura crítica da cena cultural local, refletindo sobre seus avanços, desafios e contradições. Para eles, o fortalecimento da cultura passa necessariamente pela construção de redes, pela formação contínua e pela valorização dos saberes produzidos no território. O BBS Lab, nesse sentido, opera como uma plataforma de articulação, conectando artistas emergentes e consolidados, linguagens diversas e perspectivas múltiplas sobre o fazer cultural.
Um dos pontos centrais da entrevista é o processo de criação do novo álbum “Feitiço” de Bixarte, projeto que sintetiza a filosofia do Lab. A obra nasce do encontro entre corpos, ideias e sonoridades, atravessada por experimentações e colaborações que desafiam fronteiras estéticas. O álbum não é apenas um produto final, mas o resultado de um percurso coletivo, onde o processo criativo se torna tão relevante quanto a obra em si. Nesse fluxo, o BBS Lab reafirma seu papel como espaço de escuta, risco e invenção.
A trajetória de Big Jesi ajuda a compreender a densidade artística que atravessa o Lab. Multi-instrumentista, beatmaker e produtor musical, ele construiu sua linguagem a partir do diálogo entre o funk, o rock, o soul e o afrobeat. Com passagens por projetos de artistas como Chico César, Cabruêra, Totonho, Bixarte, Ferve, Mari Santana e Rieg, Big Jesi traz para o BBS Lab uma visão estética plural, marcada pela experimentação e pela sensibilidade sonora. Seu álbum “Kroutons” (2019), fruto do movimento #30dias30beats, simboliza esse compromisso com a criação contínua e com o fazer artístico como prática cotidiana.
Complementando essa força criativa, Guirraiz atua como produtor cultural, DJ, professor e empresário, com formação em Mídias Digitais pela UFPB. Sua atuação transita entre a gestão cultural, a educação e a curadoria de projetos, ampliando o alcance das ações do BBS Lab. Guirraiz imprime ao espaço uma dimensão pedagógica e estratégica, fundamental para a sustentabilidade das iniciativas e para a formação de novos agentes culturais. Sua presença reforça o entendimento de que cultura também é planejamento, mediação e construção de futuro.
A entrevista também revisita experiências marcantes vividas no Lab, como a troca artística com Emicida, apontada pelos sócios como um momento de aprendizado e expansão de perspectivas. Essas vivências reforçam a potência do BBS Lab como espaço de circulação de ideias e de conexão com redes nacionais, sem perder o enraizamento no território paraibano.
O olhar para 2026 aparece como um convite à continuidade e à expansão. Novos projetos, colaborações e ações formativas estão no horizonte, sempre orientados pela lógica da coletividade e da experimentação. O BBS Lab se projeta, assim, como um dos pilares da cena cultural de João Pessoa, reafirmando que a arte, quando nasce do encontro, tem força para transformar realidades.
Mais do que um estúdio ou um centro de produção, o BBS Lab se afirma como um espaço de pensamento, criação e afeto, onde a cultura não apenas acontece, mas se reinventa. Um território onde a colaboração deixa de ser discurso e se transforma em prática cotidiana, fortalecendo a cena artística local e ampliando os imaginários possíveis para o presente e o futuro da cidade.






