Johnny Hooker transforma amor, memória e política em manifesto latino-americano no álbum Viver e Morrer de Amor na América Latina

Com participações de Ney Matogrosso, Daniela Mercury e Lia de Itamaracá, cantor pernambucano lança seu trabalho mais íntimo e simbólico, marcado por renascimento artístico e emocional.

Johnny Hooker nunca foi um artista do óbvio. Em Viver e Morrer de Amor na América Latina, seu quarto álbum de estúdio, lançado em dezembro de 2025, o cantor e compositor pernambucano alcança um novo grau de maturidade estética e conceitual. O disco não apenas reafirma sua potência artística como o posiciona como um dos intérpretes mais sensíveis e politicamente conscientes da música brasileira contemporânea.

Construído ao longo de três anos, o álbum se apresenta como uma obra de travessia. Musicalmente, Hooker percorre ritmos e referências da América Latina com elegância e intensidade, criando um mosaico sonoro que dialoga com bolero, salsa, música tropical, tradição nordestina e canção popular brasileira. Cada faixa carrega o peso da emoção e o cuidado de quem entende a música como linguagem afetiva, histórica e política.

A faixa-título, que conta com a participação de Ney Matogrosso, surge como um encontro de gerações e simbolismos. É um diálogo entre duas vozes que desafiaram padrões, corpos e narrativas ao longo do tempo. Ney empresta sua dramaticidade quase ritualística a uma canção que sintetiza o espírito do álbum: viver e amar na América Latina é também resistir, sofrer, se reinventar e seguir cantando.

As participações de Daniela Mercury e Lia de Itamaracá ampliam ainda mais o alcance simbólico do projeto. Daniela traz força, movimento e identidade popular, enquanto Lia representa a ancestralidade e o chão cultural que sustenta o disco. São presenças que não funcionam como adornos, mas como extensões do discurso artístico de Hooker.

O próprio cantor define o trabalho como o mais pessoal de sua carreira, e isso se reflete em cada detalhe. As canções funcionam como crônicas íntimas, atravessadas por memórias amorosas, reflexões filosóficas e posicionamentos políticos. Ao escrever sem a intenção inicial de criar um álbum, Hooker permitiu que o processo fosse orgânico, resultando em uma obra honesta, fragmentada e profundamente humana.

Há também, neste disco, um forte sentido de reconstrução. Após a pandemia, uma experiência familiar traumática e um grave problema de saúde enfrentado em 2023, Johnny Hooker emerge mais consciente de sua fragilidade e, paradoxalmente, mais forte. Viver e Morrer de Amor na América Latina é, acima de tudo, um álbum de renascimento, uma declaração de gratidão à arte, à vida e ao público que o acompanha.

Johnny Hooker entrega aqui não apenas um disco, mas um testemunho. Um trabalho que reafirma sua coragem artística, sua sofisticação poética e sua capacidade rara de transformar dor em beleza. Ao cantar o amor em suas dimensões mais intensas e contraditórias, ele nos lembra que, na América Latina, amar é sempre um ato radical.