Léo Paiva e o Nordeste que o Brasil precisa ouvir

Entre câmeras, afetos e resistência, o criador do “Nordestinos Pelo Mundo” transforma escuta em legado e identidade em movimento cultural.

Há projetos que nascem como ideia. Outros nascem como urgência. Os Nordestinos Pelo Mundonasce como pertencimento. Um gesto de amor que atravessa territórios, sotaques e histórias para reafirmar algo essencial: o Nordeste não precisa ser explicado, apenas ouvido. À frente desse movimento está Léo Paiva, comunicador que fez da escuta um ato político e da cultura nordestina um legado em construção.

Foto: divulgação.

Fotógrafo, diretor de vídeo, marketeiro e apresentador, Léo é carioca de nascença, mas nordestino por escolha, e por convicção. Foi no Ceará que ele construiu casa, família, identidade e missão. E foi a partir desse lugar afetivo que criou um dos principais canais de valorização da região no Brasil contemporâneo.

Foto: divulgação.

O Nordestinos Pelo Mundo se destaca pela qualidade das entrevistas, pela profundidade das conversas e pelo cuidado com cada história contada. Não há pressa, nem superficialidade. Há tempo, silêncio e escuta. Já sentaram à mesa do projeto Wagner Moura, Juliette, Mariana Ximenes, Bruna Pinheiro, Max Petterson, além de artistas, intelectuais, professores, pesquisadores e pessoas anônimas que ajudam a desenhar o Nordeste real: plural, moderno, criativo e profundamente humano.

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O canal cresce a cada dia porque fala de um Nordeste que se reconhece e se vê representado. As temporadas gravadas no Rio de Janeiro e em Recife ampliaram o alcance do projeto e reforçaram sua vocação de ponte entre quem ficou e quem partiu, entre quem vive no Nordeste e quem carrega o Nordeste consigo pelo mundo.

“Eu quero mostrar pra todo mundo que tenha algum tipo de pré-conceito ou preconceito o Nordeste, o Ceará e a Fortaleza que eu conheci e que eu chamo de casa. Eu quero falar desse pessoal massa que eu conheci e quero catalogar isso. Agora virou a missão da minha vida”, afirma Léo Paiva, ao falar sobre sua trajetória e propósito.

Em maio de 2025, o canal ganhou repercussão nacional após um episódio simbólico durante o Festival de Cinema de Cannes, na França. Léo tinha uma entrevista marcada com Wagner Moura, premiado como Melhor Ator pelo longa O Agente Secreto, quando o carro da equipe foi arrombado e todo o equipamento furtado. O que poderia ter sido um ponto final se transformou em símbolo de resistência coletiva: uma mobilização espontânea devolveu, em poucos dias, tudo o que havia sido perdido.

Mais do que um canal no YouTube, Os Nordestinos Pelo Mundo é um movimento. Um arquivo afetivo da cultura nordestina contemporânea. Um espaço onde o Nordeste não é cenário, mas protagonista. Onde tradição e renovação caminham juntas. Onde a memória vira futuro.

A seguir, você confere a entrevista completa com Léo Paiva, que aprofunda sua trajetória, seu olhar sobre identidade, descentralização cultural, responsabilidade na comunicação e o legado que ele deseja deixar para as próximas gerações.

Entrevista com Léo Paiva na íntegra

1. Em que momento o Nordeste deixou de ser apenas um lugar e passou a ser identidade, casa e missão de vida para você?

O Nordeste entrou na minha vida quando eu comecei a fazer shows com a minha então banda, Áudio 3, em Natal, no Rio Grande do Norte. Fizemos alguns shows por lá e foi quando comecei a me aproximar mais da região. Também tive um relacionamento com uma pessoa de Salvador, o que me fez visitar a cidade com frequência.

De toda forma, os estados nordestinos, para nós músicos, sempre foram um lugar de desejo. A gente sonhava em tocar nos festivais que aconteciam no Nordeste. Me mudei para Fortaleza quando vim passar alguns dias na cidade depois de shows em Natal. Conheci uma pessoa, me lancei nessa mudança e acabei ficando.

Esse relacionamento terminou, mas minha ligação com a cidade não. Mais adiante comecei a trabalhar com fotografia, montei uma banda chamada Sulamericana, fui empreendendo, conheci minha atual esposa e, aí sim, Fortaleza virou casa, virou lar

2. Quando você percebeu que o projeto ultrapassou o formato de videocast e se transformou em um movimento cultural?

O Os Nordestinos Pelo Mundo nasceu do incentivo da minha mãe, que sempre quis me ver à frente das câmeras. Em 2022 gravei os pilotos e, com o tempo, o projeto virou minha vida. Em 2023, inclusive, larguei a minha agência de marketing, da qual eu era sócio com minha esposa, para me dedicar 100% ao Nordestinos Pelo Mundo.

Ele se tornou algo maior que um canal porque realmente é. Nasce da ideia de um “sudestino” que quis mostrar o Nordeste que o recebeu, de alguém que veio, se apaixonou e nunca mais quis ir embora. Também nasce da missão de lutar contra a xenofobia que, infelizmente, ainda existe.

Eu mostro os nove estados nordestinos através das pessoas incríveis que vivem nessa região maravilhosa. Mostro raiz, mas também modernidade, ciência, cultura, arte e toda a pluralidade e potência que o Nordeste é. Mostro a realidade, e não o estereótipo que muitos ainda insistem em reproduzir.

4. O que essas conversas revelaram sobre o Nordeste que o Brasil ainda insiste em não enxergar?

Elas mostram a realidade: um Nordeste potente, moderno, que ama suas raízes, mas que também é liderança científica, acadêmica, literária, cinematográfica e musical, em absolutamente tudo.

Como eu sempre digo, o Nordeste não é aquele lugar que muitas TVs e novelas ainda insistem em retratar, cheio de caricaturas. Aqui, no Nordestinos Pelo Mundo, não é assim. A gente fala de raiz, porque o nordestino ama suas culturas profundas, mas também apresenta toda a potência moderna que o Nordeste é.

5. Em que momento você sentiu que o projeto se tornou coletivo?

Quando vejo artistas, influenciadores, escritores e também pessoas que não vivem da internet, professores, educadores, sentando na nossa mesa e dizendo:

“Caramba, eu estou no Os Nordestinos Pelo Mundo!”

Isso me emociona muito. Ver o reconhecimento dos convidados é algo muito especial. Também percebo isso na rua, em várias partes do Brasil, quando as pessoas me abordam para dizer o quanto o projeto é importante para o Nordeste. Hoje eu sinto claramente: ele é coletivo. É um podcast que representa o Nordeste.

6. O que as temporadas fora do Ceará te ensinaram sobre pertencimento e identidade nordestina?

Sempre que viajamos, conversamos com pessoas dos nove estados nordestinos espalhadas pelo Brasil, e as histórias são muito diferentes. No Sudeste, encontramos pessoas que foram em busca de oportunidades que só existiam ali, desde uma atriz que precisou estar no Rio até uma professora que se mudou para São Paulo para ajudar a família.

Quando viajamos pelo Nordeste, encontramos pessoas que decidiram viver suas vidas onde nasceram, que deram tudo de si na própria terra e conquistaram tudo ali. Como a Dada Coelho disse em uma entrevista: “Existe luta e alegria em quem fica e em quem vai.”

O que eu aprendi é que o povo nordestino é incrível. Sou casado com uma cearense, uma fortalezense incrível, e o que fazemos no Nordestinos Pelo Mundo é isso: deixar um legado dessas andanças, dessas lutas e, acima de tudo, das conquistas de um povo sensacional.

7. Como o episódio de Cannes ressignificou sua relação com o trabalho e com a resistência?

Foi um momento muito difícil, mas também o momento de maior amor que já recebemos. Uma comunidade gigantesca se mobilizou por nós. Perdemos mais de 100 mil reais em equipamentos e, em apenas cinco dias, através da vaquinha, esse valor já tinha sido recuperado.

Recompramos tudo. Em 15 dias, os equipamentos estavam encomendados; em 30 dias, tudo já estava funcionando novamente. Foi lindo perceber o quanto somos queridos. Aquilo deu ainda mais sentido ao projeto, na verdade, fortaleceu um sentido que já existia.

8. Qual estereótipo sobre o Nordeste mais te incomoda e que o canal ajuda a desconstruir diariamente?

Para mim, é muito difícil, e inaceitável, ouvir pessoas do Sudeste e do Sul se referirem aos nordestinos de forma xenofóbica. É insuportável ver o Nordeste ser tratado como um lugar sem estrutura, sem educação, preso a conceitos preconceituosos que são transmitidos de geração em geração há mais de cem anos.

Como diz Octavio Santiago em seu livro, isso faz parte de um projeto histórico, político e simbólico de mais de um século contra toda uma região, uma tentativa de achatar e diminuir os nove estados nordestinos. Para mim, isso é inaceitável.

O Os Nordestinos Pelo Mundo existe, todos os dias, para lutar contra essa narrativa.

9. Você percebe um diálogo entre tradição e renovação da cultura nordestina nas entrevistas?

Existe algo muito bonito acontecendo: as gerações se respeitam. A nova geração respeita profundamente quem veio antes, e eu sinto que os artistas das gerações anteriores têm muito orgulho de quem está chegando agora. O que aparece nas conversas é, acima de tudo, amor, troca e reconhecimento mútuo.

10. Você enxerga o canal como um arquivo afetivo da cultura nordestina contemporânea?

Totalmente. O Nordestinos Pelo Mundo é um lugar onde você encontra o legado nordestino. Quer conhecer o Nordeste? Cola no podcast. Ali existe uma forma condensada de fazer isso. Já são mais de 500 personalidades entrevistadas.

A minha ideia é exatamente essa: criar um espaço onde as pessoas possam conhecer o Nordeste em toda a sua pluralidade cultural, social, artística e humana.

11. Como você analisa o olhar histórico do Brasil sobre o Nordeste e o movimento de descentralização do eixo Rio-São Paulo?

Eu uso muito um termo que quero que mais pessoas passem a usar: o Eixo dos 9 Nordestes. Se existe o eixo Rio–São Paulo, existe também o Eixo dos 9 Nordestes e ele é potente.

O que eu tento fazer é abrir um debate para que grandes personalidades nordestinas, de todas as áreas, sejam mais generosas com os projetos do Nordeste. Só assim a descentralização acontece de verdade. É importante ir para o eixo Rio–São Paulo, faz parte, é necessário. Mas não dá para virar as costas para casa.

Eu já ouvi artistas dizendo: “No Nordeste eu descanso, em São Paulo eu trabalho”. Olha o tamanho desse problema. O Nordeste acaba recebendo apenas o descanso, e não o trabalho. Eu luto para que isso mude. Para que a comunicação feita aqui tenha o mesmo nível de respeito que essas personalidades dão ao eixo Rio–São Paulo. Acho que estamos avançando, sim, nesse debate.

12. Esse movimento já permite que vozes nordestinas ocupem o centro do debate sem pedir permissão?

Existe uma evolução, sem dúvida. Mas precisamos muito, muito mesmo que os grandes nomes do Nordeste não esqueçam de devolver para casa o seu trabalho. Se isso acontecer, a gente ganha força. Se não acontecer, seguimos à margem, com tudo concentrado no Sudeste.

Um exemplo claro é Kleber Mendonça Filho. Ele ganhou tudo, é um gigante, e ainda assim é extremamente generoso com suas raízes. Já esteve três vezes no Nordestinos Pelo Mundo, sempre arruma espaço na agenda, oferece entrevistas longas, se dedica ao projeto. Isso é devolver. Ele é pernambucano e entrega muito de si para Pernambuco e para o Nordeste. Se mais gente fizer isso, a gente muda o jogo. Precisamos falar mais sobre isso.

13. Que responsabilidade nasce quando artistas escolhem seu canal para falar de identidade e pertencimento?

Nasce muita responsabilidade. O Nordestinos Pelo Mundo virou um espaço de busca por bons debates. Eu nunca caio nessa ideia de que “podcast é só um bate-papo” como desculpa para não me preparar. É um bate-papo, sim, mas é um bate-papo com responsabilidade.

Estamos conversando com pessoas que influenciam muita gente. Por isso, encaro cada entrevista com muita seriedade. Muita mesmo.

14. Que feedback do público mais te marcou sobre a dimensão social do projeto?

Recentemente aconteceu algo muito especial. A Solange Almeida me ouviu falando sobre a responsabilidade que temos de abrir espaço para o novo, sobre como o nordestino busca ser generoso e como os artistas também precisam ser assim com quem está chegando.

Durante a conversa, citei a Lua, uma cantora nova da cidade, que toca em barzinhos. Contei isso para a Sol e, de forma extremamente generosa, ela respondeu:

“Pois agora a Lua tem um feat comigo. Vamos gravar.”

é sobre isso. Essa é a missão: gerar encontros, fazer a generosidade circular. Também me marca muito ouvir pessoas dizendo que assistem ao programa para se sentirem mais perto de casa, para conhecer novos artistas, como uma fonte de cultura e descoberta. É só orgulho.

15. Que Nordeste você quer deixar registrado como legado para as próximas gerações?

O Nordeste real. Um Nordeste que ama suas raízes, respeita seus antepassados, mas que também é moderno, potente e vence seus desafios todos os dias. Um Nordeste que é liderança em literatura, música, cinema, arte, ciência e educação.

O legado que eu quero deixar é esse: milhares de pessoas nordestinas registradas para a eternidade. Ter sido luz para novas carreiras, ter sido oportunidade, amor, generosidade. Se isso ficar para as pessoas, eu venci.