Nascido nos Estados Unidos, filho de pais de origens francesa e alemã, e radicado no Brasil desde 2005, Rieg Rodig, conhecido artisticamente como riegulate, é um criador que desafia fronteiras estéticas e conceituais. Músico, VJ, videoartista e programador de experiências imersivas, sua trajetória se constrói a partir do encontro entre linguagens, territórios e estados sensoriais distintos. Mais do que uma condição biográfica, esse nomadismo se converte em matéria-prima artística.

Autor de dois álbuns visuais solo, riegulate transita pelo space rock, synth psicodélico e trip hop, criando atmosferas que oscilam entre o meditativo e o inquietante. Sua identidade visual é marcada pelo uso de glitches analógicos, estética VHS, arte generativa e inteligência artificial, evocando a memória da antiga internet dos anos 2000 e a materialidade imperfeita dos suportes analógicos. Longe de um exercício puramente nostálgico, seu trabalho se aproxima de uma arqueologia sensível da imagem, onde o erro, o ruído e a falha ganham potência poética.

“A arte, pra mim, é essencialmente comunicação de experiências e valores”, afirma. “Eu sempre senti que queria pintar um quadro por completo, ver o mesmo objeto por diversos lados. Talvez isso venha de falar vários idiomas e de ter mudado tanto na infância. Eu queria ser legível pra todos.”
Essa recusa em se limitar a um único formato se reflete em sua atuação múltipla. Como VJ, riegulate já assinou experiências visuais em eventos como Baile Muderno, Centro Cultural Energisa, Grupo Projetemos e Usina de Verão, além de apresentações internacionais. Como videomaker, colaborou com artistas como Maga Bo, Chico Correa, Mark de Clive-Lowe e Moe Clark, sempre tensionando o papel da imagem dentro da performance musical.
“A minha meta como artista, mas principalmente como VJ, é realçar a imersão e facilitar a união das pessoas naquele momento”, explica. “Somando as artes, conseguimos atingir outros níveis de imersão, quase como viagens astrais. Eu tento facilitar o entendimento do som visualmente e, mais recentemente, através da interação.”
Essa dimensão participativa se aprofunda em Nomad Soul Zero, projeto em que a música se expande para um jogo interativo de celular. A escolha revela um interesse direto pela ideia de obra aberta, na qual o público deixa de ser apenas espectador.
“Quando você trabalha com jogos, a experiência vira uma nova camada artística”, reflete. “Um jogo pode ser qualquer coisa. Pode ser vídeo, pode ser linear, pode ter desdobramentos. É um campo extremamente vasto.”
O projeto dialoga com imaginários cyberpunk e com as dores da pós-modernidade, intensificadas durante a pandemia.
“As músicas falavam sobre as experiências do futuro distópico próximo, e a gente estava vivendo isso na prática. Queríamos traduzir essa mensagem e torná-la acessível, mesmo pra quem não é gamer ou sommelier de música.”
A sensação de deslocamento e não pertencimento atravessa profundamente sua obra. A trajetória de vida de Rieg é marcada por rejeições e deslocamentos sucessivos, da infância nos Estados Unidos e na Alemanha até a chegada ao Brasil.
“É uma luta constante pra mim e isso aparece na minha arte. Eu sempre me senti estrangeiro, em todos os lugares.”
A ironia desse percurso se revela quando, em 2023, ele retorna aos Estados Unidos para um trabalho como VJ, após três décadas longe do país.
“Foi a experiência mais surreal da minha vida. Eu reconhecia muita coisa da minha infância, mas tudo era diferente. Eu não era mais aquela pessoa, e o lugar também não era mais o mesmo.”
Formado em psicologia, Rieg carrega para sua produção artística um olhar atento à subjetividade, à percepção e ao inconsciente.
“Eu busco muito compreender o outro, talvez por conta das rejeições que vivi. No fundo, eu só quero fazer parte e me sentir em casa”, confessa. “Eu quero que as pessoas sintam o que eu sinto, e eu quero sentir o que elas sentem.”
Em álbuns como Jupiter, o artista propõe um imaginário retrofuturista onde passado, presente e futuro coexistem.
“Uma coisa não exclui a outra. A gente carrega nossa ancestralidade no corpo, vive o presente com todas as tensões sociais e, de certa forma, já vive o futuro também”, filosofa. “Mas construir uma utopia exige abrir mão de muito conforto, e talvez a gente ainda não esteja pronto.”
Entre música, videoarte, programação e experiências imersivas, riegulate constrói uma obra que não busca respostas fáceis. Seu trabalho é feito de camadas, ruídos e atravessamentos, um convite para sentir antes de compreender. No caos contemporâneo, ele encontra não uma fuga, mas um espaço de reorganização sensível, onde imagem e som se tornam, juntos, um território possível de pertencimento.
Entrevista na íntegra | Riegulate
1. Sua obra transita entre música, VJ, videoarte e experiências imersivas. Em que momento você percebeu que sua linguagem artística não cabia mais em um único formato e precisava existir nesse estado híbrido, quase indisciplinado?
Acho que isso tem muito a ver com o fato de eu falar vários idiomas, inglês, alemão, português, um pouco de francês e espanhol, consequência de tantas mudanças na minha infância. Mas, acima de tudo, pra mim a arte é comunicação de experiências e valores. Muitas vezes me senti como um alienígena, sem raízes em lugar nenhum. Por isso, sempre quis que as pessoas conseguissem entender o que eu estava tentando expressar, que meu trabalho fosse legível para todos. Eu queria pintar um quadro completo, observar o mesmo objeto por diferentes ângulos. A geração em que cresci também carrega muito dessa ética DIY e punk, de simplesmente ir lá e fazer, mesmo com poucos recursos.
2. O uso recorrente de found footage, glitches analógicos, VHS e a estética da antiga internet sugere uma arqueologia da memória audiovisual. O que você busca resgatar nessas imagens do passado: nostalgia, crítica ou reinvenção?
Eu sempre amei essa estética de found footage. Desde a primeira vez que assisti A Bruxa de Blair em VHS, no porão assombrado da minha tia, fiquei impressionado com como algo tão forte podia ser feito com tão pouco recurso. Também lembro de tentar assistir aqueles canais pagos que só exibiam ruído e chuvisco da TV, o que criava um mistério enorme e liberava muito a imaginação. Frequentei grupos underground de troca de found footage na internet, comunidades fechadas de eMule e torrent, cheias de VHS gravados por cima várias vezes e esquecidos. Existe nostalgia, claro, mas é uma nostalgia muito misteriosa e intrigante. É quase como o gato de Schrödinger: até você assistir, aquele VHS pode conter qualquer coisa. O que era comum ou aceitável naquela época hoje pode parecer perverso ou grotesco. Isso dialoga muito com o som que eu faço. Eu amo os ruídos e falhas da fita K7. Eles dão vida e caráter a sons que hoje chegam a ser limpos demais, quase cirúrgicos, vítimas da busca pela perfeição.
3. Em Nomad Soul Zero, a música se desdobra em um jogo interativo para celular. Como essa escolha dialoga com a ideia de participação do público e com a noção de obra aberta?
Foi extremamente desafiador. Música e filme são mídias lineares, enquanto o jogo traz controle, interação e experiência como uma nova camada artística. Estudei bastante roteiro para jogos naquela época e isso foi fantástico pra mim como artista. É um desdobramento gigantesco, uma dimensão artística extremamente vasta. Um jogo pode ser qualquer coisa: pode ser feito com vídeo, sprites, pode ser linear ou não, pode envolver realidade aumentada ou virtual, além de diferentes estilos e formas de interação. Queríamos criar algo inovador, que dialogasse com o futuro e com o imaginário cyberpunk. As músicas falavam sobre as dores da pós modernidade e de um futuro distópico próximo, algo que estávamos vivendo na prática durante a pandemia, especialmente aqui no Brasil. Também queríamos que essa mensagem fosse acessível, mesmo pra quem não é gamer ou sommelier de música. Nunca nos encaixamos no indie rock brasileiro mais tradicional, então também foi uma busca por um novo público no mundo digital, talvez mais introvertido.
4. Seu percurso biográfico atravessa fronteiras geográficas e culturais. De que forma esse deslocamento constante molda sua percepção de pertencimento e identidade artística?
Sinceramente, isso é uma luta constante e aparece diretamente na minha arte. Geralmente canto em inglês porque é o que considero minha língua mãe, apesar de minhas primeiras palavras terem sido em francês. Sempre senti muita rejeição por ser estrangeiro. Na infância, na Flórida, as outras crianças não me entendiam porque eu só falava francês. Na Alemanha, aos dez anos, cheguei a ser proibido de permanecer em sala porque a professora não gostava de estrangeiros. As crianças me achavam estranho e não se aproximavam. Quando cheguei ao Brasil, aos vinte anos, aconteceu algo parecido. Fui a uma festa de aniversário sem falar português e, mesmo as pessoas estudando inglês, ninguém se aproximava. Anos depois, ouvi que me achavam apenas esquisito, tímido e solitário. Tudo isso, somado ao impacto cultural e ao aprendizado de idiomas, moldou profundamente quem eu sou e como me expresso artisticamente.
5. A estética do ruído, da falha e do erro aparece tanto no som quanto no visual do seu trabalho. Em um mundo obcecado por alta definição e performance perfeita, o que te atrai justamente no imperfeito?
O erro é humano. A falha carrega verdade. Quando tudo soa perfeito demais, eu sinto que algo foi perdido no caminho. O ruído é quase como uma impressão digital da experiência, ele revela o processo, o tempo, a matéria. Cresci cercado por tecnologias que falhavam, fitas que embolavam, imagens que distorciam, e isso fazia parte da magia. Hoje, quando tudo é limpo e previsível, o imperfeito vira um gesto político, uma forma de resistência estética. É ali que a emoção escapa do controle.
6. Sua obra dialoga com temas como isolamento, deslocamento, futuro distópico e identidade fragmentada. Você acredita que esses assuntos são reflexo da sua trajetória pessoal ou do espírito do nosso tempo?
Acho que é impossível separar completamente uma coisa da outra. Minha história pessoal sempre foi marcada por deslocamentos, mas o mundo também entrou nesse mesmo estado de instabilidade. Vivemos um tempo de identidades líquidas, de relações mediadas por telas, de futuros que parecem cada vez mais incertos. Minha arte acaba funcionando como um espelho duplo: reflete o que vivi, mas também o que estamos vivendo coletivamente.
7. Existe um forte componente sensorial no seu trabalho, quase como se som e imagem quisessem ser sentidos no corpo. O que você busca provocar emocionalmente em quem entra nesse universo?
Não quero explicar nada de forma didática. Quero provocar sensações. Às vezes desconforto, às vezes curiosidade, às vezes um tipo de melancolia difícil de nomear. Gosto da ideia de criar espaços onde as pessoas possam se perder um pouco, desacelerar o pensamento racional e apenas sentir. Se alguém sai tocado, mesmo sem saber exatamente por quê, pra mim já faz sentido.
8. Ao longo da sua trajetória, você transitou entre circuitos underground, digitais e institucionais. Como você enxerga essa circulação entre margens e centros no seu percurso artístico?
Sempre me senti mais confortável nas margens. Foi ali que encontrei liberdade para experimentar e errar. Mas também entendo a importância de ocupar outros espaços, dialogar com novas audiências e tensionar estruturas mais estabelecidas. Não vejo isso como uma contradição, mas como um movimento natural. Levar a linguagem experimental para outros contextos também é uma forma de ampliar o alcance da mensagem.
9. A tecnologia aparece no seu trabalho tanto como ferramenta quanto como tema. Você a enxerga mais como aliada, ameaça ou extensão do humano?
Vejo como uma extensão do humano, com todas as suas contradições. A tecnologia amplifica tanto nossas virtudes quanto nossas falhas. Ela pode aproximar, mas também isolar. Pode libertar, mas também controlar. Meu interesse está justamente nesse limiar, nesse ponto em que já não sabemos onde termina o humano e começa a máquina.
10. Olhando para o agora e para os próximos passos, o que ainda te instiga artisticamente e que territórios você sente vontade de explorar?
Ainda me instiga o desconhecido. Quero continuar explorando formatos híbridos, narrativas não lineares e experiências que cruzem diferentes linguagens. Me interessa pensar o futuro não como algo distante, mas como algo que já está infiltrado no presente. Enquanto existir inquietação, deslocamento e curiosidade, acho que a obra continua em movimento.








