Allana Marques e Golarrolê: 20 anos de força, identidade e revolução na cultura urbana

Entre a energia da pista e a criação de narrativas que desafiam padrões, Allana Marques transforma a Golarrolê em um dos movimentos culturais mais relevantes do Brasil contemporâneo

Ao longo de vinte anos, poucos projetos conseguiram atravessar o tempo com a mesma potência simbólica, relevância social e consistência estética que a Golarrolê. Nascida em Recife, a iniciativa ultrapassou os limites de uma festa para se consolidar como um verdadeiro movimento cultural, onde música, política, identidade e pertencimento coexistem de forma natural. No centro dessa construção está Allana Marques, DJ e produtora cultural cuja trajetória se conecta diretamente com a evolução da cena urbana e LGBTQIA+ no país.

Foto: Lucas Logiovine e Allana Marques

Mais do que conduzir pistas, Allana cria experiências. Sua atuação revela uma sensibilidade rara, capaz de compreender a cultura não apenas como entretenimento, mas como ferramenta de transformação social e afirmação de narrativas historicamente invisibilizadas. Ao longo de sua caminhada, ela ajudou a construir um espaço onde corpos dissidentes não apenas ocupam, mas protagonizam.

 

A Golarrolê nunca seguiu um caminho linear. Sua história é marcada por decisões corajosas e por uma recusa constante em se adaptar a padrões impostos pelo mercado. Ao migrar de espaços tradicionais, ampliar a diversidade em seus line ups e assumir posicionamentos claros, o projeto reforçou seu compromisso com uma cultura que existe por necessidade, não por conveniência.

Foto: divulgação.

Essa postura não apenas redefiniu os rumos da festa, mas também ampliou o entendimento de produção cultural como construção de mundo. Para Allana, cada escolha estética carrega um significado. Cada artista convidado, cada música e cada pessoa presente na pista ajudam a construir uma narrativa coletiva que transforma espaços e cria novas possibilidades de existência.

Foto: divulgação.

Inserida em um Recife criativo e pulsante, mas também desafiador, a Golarrolê se destaca como símbolo de continuidade e provocação. Em meio a ciclos de visibilidade e apagamento, o projeto manteve sua força, oferecendo não apenas entretenimento, mas espaços reais de expressão e conexão. Ao mesmo tempo, segue ampliando horizontes e defendendo uma cidade mais diversa, livre e representativa.

Foto: Allana Marques.

Sustentar, por duas décadas, um projeto com posicionamento político e identidade forte exige escolhas firmes. Em um cenário que muitas vezes pressiona por neutralidade, a Gola optou por manter sua essência. Recusar caminhos mais fáceis e se posicionar foram atitudes que fortaleceram ainda mais sua autenticidade.

Foto: Pabllo Vittar e Tati Quebra Barraco.

A presença de nomes como Pabllo Vittar e Tati Quebra Barraco na edição comemorativa reforça esse percurso. São artistas que representam ruptura, afirmação e transformação dentro da cultura brasileira. Juntas, simbolizam uma trajetória construída por quem abriu caminhos e por quem continua expandindo espaços.

Foto: divulgação.

Em um tempo marcado por tendências passageiras, Allana Marques mantém um olhar atento e criterioso. A Golarrolê acompanha o presente, mas não se perde nele. Sua força está justamente em inovar sem abrir mão da identidade, escolhendo com consciência o que faz sentido para sua história.

Essa visão se conecta diretamente com sua experiência como DJ. Sua relação com a pista é sensível e intuitiva. É nesse espaço que ela entende o ritmo das pessoas, as emoções e as conexões, elementos que influenciam diretamente suas decisões como produtora. Cada evento é pensado como uma experiência completa, onde o impacto começa antes da música e permanece depois que ela termina.

O futuro ainda apresenta desafios importantes, como desigualdade de acesso, valorização de artistas e descentralização cultural, especialmente no Nordeste. E é nesse contexto que a Golarrolê segue atuando com relevância, criando oportunidades, abrindo diálogos e fortalecendo uma cultura que resiste e se reinventa.

Allana Marques construiu mais do que uma carreira. Ela ajudou a transformar espaços e narrativas. E a Golarrolê se firma como um dos movimentos culturais mais importantes do Brasil, onde cada batida representa liberdade, pertencimento e futuro.

Confira a entrevista na íntegra:

Allana Marques é DJ, produtora cultural e uma das mentes por trás da Golarrolê, produtora de festas e entretenimento que nasceu em Recife/PE e se tornou um dos movimentos mais importantes da cultura urbana e LGBTQIA+ no Brasil. Ao longo de duas décadas, Allana construiu uma trajetória marcada pela sensibilidade artística, curadoria potente e um olhar atento às transformações sociais, ajudando a consolidar a Gola como espaço de resistência, celebração e pertencimento.

1. A Golarrolê chega aos 20 anos como um dos movimentos mais consistentes da cultura urbana e LGBTQIA+ no Brasil. Olhando em retrospecto, quais foram os momentos de ruptura que você acredita terem redefinido não só a festa, mas também a sua própria visão como produtora cultural?

A Gola nunca foi linear, e acho que os momentos de ruptura foram justamente quando a gente se deu conta que arriscar perder era necessário para poder evoluir. A saída de espaços tradicionais para ocupar outros territórios, o lance de ampliar a diversidade na pista, no line-up e na equipe, e também os momentos em que a gente entendeu que não dava pra separar festa de posicionamento político.
Essas viradas mudaram não só a Gola, mas a nossa forma de produzir, porque passamos a entender cultura como construção de mundo, não só como entretenimento.

2. Sua trajetória atravessa diferentes camadas da cena, da pista como DJ à articulação estratégica como produtora. Em que momento você percebeu que seu trabalho ia além do entretenimento e passou a operar como construção de narrativa e território cultural?

Isso foi algo que aconteceu aos poucos e naturalmente, mas teve um momento muito claro em que eu percebi que a pista era um espaço de disputa simbólica. Quando você escolhe quem toca, o que toca e quem ocupa aquele espaço, você está criando narrativa. Ali eu entendi que meu trabalho não era só fazer as pessoas dançarem, mas dançarem e criarem histórias em um lugar onde todas as existências pudessem se reconhecer, se fortalecer e se projetar com atenção, cuidado, qualidade e segurança.

3. Recife sempre foi um celeiro criativo pulsante, mas também desafiador. Como você enxerga a evolução da cena cultural da cidade nas últimas duas décadas e qual foi, e ainda é, o papel da Golarrolê nesse ecossistema?

As diversas cenas culturais de Recife sempre foram muito potentes, mas sinto que sempre foram marcadas por ciclos de efervescência e de apagamento. Existe uma força criativa muito evidente, que nem sempre é acompanhada por estrutura, continuidade ou reconhecimento dentro da própria cidade. É luta, mas nas últimas duas décadas, e principalmente atuando nesse meio, percebo uma transformação importante: a cidade está mais diversa, mais conectada, mais articulada e mais consciente do seu valor. Há uma renovação constante, com uma galera que produz com autonomia, identidade e intenção de ocupar a cidade de outras formas, mesmo diante de desafios estruturais persistentes. Tem muita renovação, articulações importantes e muito fortalecimento. Acho que a Gola se insere como um agente de continuidade e provocação. A gente ajudou a manter uma chama acesa em momentos frágeis, criando espaços de encontro e expressão quando isso mal existia. E, ao mesmo tempo, seguimos tensionando a cidade pra caber mais gente, mais corpos, mais estéticas e mais liberdade.

4.Ao longo desses 20 anos, a Gola construiu um espaço de pertencimento para corpos e identidades historicamente marginalizados. Quais foram os maiores desafios em sustentar essa proposta sem diluir sua potência política e estética?

Acho que o maior desafio é assumir, se assumir e botar a cara numa sociedade patriarcal e preconceituosa. Quando um projeto cresce, existe uma pressão constante pra suavizar, pra se tornar mais palatável. Sustentar a Gola como uma comunidade e um espaço de pertencimento exigiu escolhas difíceis, como recusar propostas, se posicionar politicamente e não se moldar pra caber. Mas a gente optou por esse caminho. Acho que é justamente isso que mantém a a essência há 20 anos: não abrir mão do que somos, mesmo quando o contrário seria mais fácil.

5. A escolha de nomes como Pabllo Vittar e Tati Quebra Barraco para essa edição comemorativa carrega uma força simbólica muito grande. O que essas artistas representam dentro da narrativa que vocês construíram ao longo dessas duas décadas?

Pabllo e Tati fazem parte da nossa história. Não só por ja terem estrelado nossos lines, mas também por estarem sempre presentes no som dos djs em varias festas. Além disso, ambas são símbolos de ruptura e afirmação. Pabllo, uma drag nordestina que trás outra visibilidade e reconfiguração para o pop brasileiro a partir de corpos dissidentes. Tati carrega a história do funk carioca feminino, de enfrentamento direto, de origem, de periferia, de linguagem própria, de luta por direitos. Acho que juntas, elas representam uma história importante, de quem veio antes, quem abriu caminho e quem continua expandindo esse espaço, levantando bandeiras importantes.

6. Em um cenário cada vez mais dominado por tendências rápidas e consumo imediato, como você equilibra a necessidade de inovação com a preservação da identidade original da Golarrolê?

A Gola trabalha muito sobre contextos. A gente observa o que tá acontecendo, mas não necessariamente segue a trend do momento. É importante manter o filtro a partir da nossa identidade, pq nem tudo que é novo interessa. Particularmente eu tenho sentido tudo muito volátil, sabe? E nem tudo que é antigo perdeu força. Acho que inovar com critério é uma chave importante.

7. Como DJ, você vive a pista em um lugar sensorial e quase íntimo. Como essa experiência influencia suas decisões enquanto curadora e produtora de um selo que hoje movimenta milhares de pessoas?

Trabalhar com pessoas e para pessoas é algo muito delicado. Atender expectativas, desejos e fazer daquela, talvez a noite mais especial da vida desse pessoal é uma responsabilidade muito babadeira. Ser DJ me coloca num lugar que vai além de botar som, é um lance sensitivo, quase espiritual. Eu sinto o tempo da pista, as pausas, os limites; e isso acaba influenciando diretamente minhas decisões como produtora, porque eu penso o evento também como cliente, como experiência e não só como programação. No fim, é sobre o q ue as pessoas vão levar daquele momento e isso começa muito antes do primeiro set da noite.

8. Pensando no futuro, quais são os próximos tensionamentos que você acredita que a cena cultural, especialmente no Nordeste, ainda precisa enfrentar, e como a Golarrolê pretende continuar sendo agente ativo nessas transformações?

A cena cultural como um todo ainda precisa enfrentar desigualdades muito concretas: acesso, circulação, valorização de artistas, novos talentos, bilheteria x edital e descentralização real.
No Nordeste, especialmente, ainda existe uma disputa constante por reconhecimento e estrutura para atrair investimentos, turismo e capital. A Gola segue como agente ativo justamente tensionando esses pontos, criando espaços, abrindo diálogos e insistindo na cultura urbana e da noite, que não pede permissão pra existir.