Há bandas que executam repertórios. Outras constroem experiências. A Laboratório Muderno pertence à segunda categoria. No próximo dia 23 de maio, a partir das 18h, o grupo sobe ao palco do Bar Tropicália Mutante, na General Osório, em João Pessoa, para apresentar um espetáculo que ultrapassa a ideia convencional de show e se aproxima de um rito coletivo atravessado por música, memória, experimentação e presença.

Nascida em 2013 das jam sessions improvisadas no beco da Cachaçaria Philipéia, no Centro Histórico da capital paraibana, a banda carrega em sua essência o improviso como linguagem e a mistura como identidade. Foi naquele ambiente espontâneo, pulsante e quase ritualístico que o grupo encontrou o alicerce de sua estética sonora.

“As jams foram fundamentais porque definiram o espírito da banda. Como se tocava de tudo, foi muito natural trazer essa ideia para o som que queríamos fazer”, explica o grupo. “Embora existam ritmos diferentes no repertório, nossa base é o rock. Pode ter levada de samba, mas é samba-rock. Pode ter brega, mas é brega-rock.”
Essa recusa em se prender a fronteiras musicais rígidas transformou a Laboratório Muderno em um organismo artístico em permanente mutação. Rock, Samba-rock, Funk/Soul e Brega/Rock coexistem em uma sonoridade híbrida, construída a partir das vivências individuais de cada integrante e da liberdade criativa que conduz os processos da banda.
“A ideia do laboratório vem justamente da experimentação”, afirmam. “Vamos diluindo os ritmos dentro do Rock n’ Roll, e o saldo disso tudo é o nosso som, nosso gozo coletivo.”
O show no Tropicália Mutante também simboliza um novo ciclo criativo para o grupo. A noite marcará o lançamento de uma nova música autoral da banda, apresentada como um brega moderno carregado de personalidade, astúcia e atmosfera envolvente. A faixa dialoga diretamente com a proposta artística da Laboratório Muderno ao aproximar referências populares de uma estética contemporânea e autoral.
A escolha do Tropicália Mutante como cenário para esse momento não é casual. O espaço, conhecido pela atmosfera alternativa, acolhedora e pela valorização da cena independente, já recebeu a banda anteriormente e estabeleceu uma conexão imediata com a proposta do grupo.
“O público entendeu a ideia, entrou na vibe e viveu a experiência junto com a gente. Isso transforma o show em encontro”, destacam os integrantes.
Após um hiato iniciado em 2018 e interrompido pelas incertezas da pandemia, a retomada definitiva em 2024 trouxe não apenas o reencontro da banda, mas também um amadurecimento artístico perceptível na nova fase.
“Hoje estamos mais maduros e com uma vontade enorme de tocar nossas próprias músicas e finalmente gravar. É esse tesão pela música que reflete diretamente no nosso som”, afirmam.
Essa energia coletiva se manifesta também nas releituras que integram o repertório da banda. Entre referências que atravessam gerações, a Laboratório Muderno revisita artistas da música brasileira a partir de uma perspectiva livre, afetiva e experimental. Cada integrante participa ativamente do processo criativo, propondo novas possibilidades e desconstruindo formatos tradicionais.
“O laboratório nos permite ficar completamente à vontade para criar. Todo mundo pode opinar no som. A riqueza está justamente nessa troca.”
Mais do que diversidade estética, a banda enxerga na pluralidade uma dimensão política e sensorial. Em um cenário musical frequentemente segmentado, o grupo defende a convivência entre diferenças como princípio fundamental de sua construção artística.
“O espírito do nosso tempo é a diversidade. Somos diferentes em idade, gênero, referências e visões de mundo. É impossível isso não aparecer na nossa música e no palco.”
Essa pluralidade se traduz em apresentações carregadas de entrega emocional e conexão genuína com o público. A própria vocalista Geanne Lima sintetiza esse sentimento em uma frase que, segundo a banda, se tornou quase um manifesto interno: “Canto para me curar.”
“Estamos todos, cada um à sua maneira, nos curando através da música”, concluem.
No próximo dia 23 de maio, o palco do Tropicália Mutante deve se transformar justamente nesse espaço de encontro, catarse e liberdade. Uma noite em que ritmos se misturam, afetos se atravessam e a música deixa de ser apenas entretenimento para se tornar experiência viva.
Confira a entrevista na íntegra:
1. A gênese da Laboratório Muderno, forjada nas jam sessions do Centro Histórico de João Pessoa, revela um espírito de experimentação livre. De que maneira esse ambiente espontâneo e quase ritualístico moldou a identidade sonora da banda ao longo dos anos?
R: As jans que rolavam no beco da Cachaçaria Philipéia foram importantes porque acabou definindo o espírito da banda, ou seja, como se tocava de tudo foi muito natural trazermos essa ideia para o som que queríamos fazer. Claro que tínhamos e temos um norte, cada um da banda tem suas influências & tal… Mas a ideia de transitar por diferentes ritmos acabou casando bem com o nome da banda e muito embora o repertório contenha ritmos diferentes, a nossa base é o rock. Daí que pode até ter uma levada de samba, mas na verdade é samba-rock; pode até rolar um brega, mas é brega-rock.
2. A proposta estética do grupo transita entre gêneros como Rock, Samba-rock, Funk/Soul e Brega/Rock. Como vocês constroem essa fusão de forma orgânica sem perder a coesão e a autenticidade artística?
R: Acho que isso está ligado ao que cada um traz de seu para a banda. A gente gosta muito do que faz, tem isso também. E, como dito antes, sendo a base o rock a gente vai diluindo os outros ritmos no bom e velho Rock n’ Roll, daí a ideia do laboratório, da experimentação… & o saldo disso tudo é o nosso som, é nosso gozo coletivo.
3. Após um hiato significativo iniciado em 2018 e atravessado pelas incertezas da pandemia, o retorno em 2024 marca um novo capítulo. Quais transformações pessoais e musicais emergiram desse intervalo e como elas se refletem na sonoridade atual?
R: Pois é, a banda já tem uma estrada, já passamos por algumas mudanças de integrantes e todos que já passaram pela Laboratório deixaram sua marca. Acredito que agora estamos mais maduros, percebo que todo mundo tem um tesão grande pela banda, uma vontade de tocar e tocar principalmente nossas músicas, de gravarmos (coisa que ainda não fizemos, por vários motivos). É essa vontade, esse tesão e o amadurecimento de cada um que reflete em nosso som.
4. O repertório da banda revisita nomes icônicos da música brasileira, ao mesmo tempo em que apresenta composições autorais. Como se dá o processo de ressignificação dessas obras consagradas dentro do universo criativo da Laboratório Muderno?
R: Então, é a ideia do laboratório que nos permite ficar à vontade para fazer as releituras que fazemos. Além do mais, cada integrante da banda fica completamente livre para opinar no som, acho que a riqueza de tudo está aí. Daí a gente vai testando & vendo o que dá certo e o que não dá. Infelizmente temos tido pouco tempo para ensaios voltados mais para a criação, essa questão do tempo de cada um é algo difícil de conciliar numa banda, mas temos conversado muito sobre isso e procurado alternativas. Mas como é o tesão pela música que nos move, a gente sempre dá um jeito.
5. A banda se define como um espaço de encontro entre gerações, ritmos e afetos. Em um cenário musical cada vez mais segmentado, qual é o papel dessa diversidade na construção de uma experiência sensorial no palco?
R: O espírito de nosso tempo é a diversidade, por isso passamos longe de qualquer tipo de preconceito, principalmente com relação a ritmos & estilos. Na banda somos diferentes com relação à idade, gênero e opções das mais diversas… impossível isso não refletir em nossa proposta sonora e experiência de palco. Acho que nosso público tem percebido isso e tem nos dado um bom retorno.
6. Com uma formação que reúne diferentes trajetórias e influências, como cada integrante contribui para esse “laboratório de sons” e de que forma essa pluralidade fortalece a identidade coletiva do grupo?
R: Cada integrante contribui trazendo um pouco de si, de seu universo particular, essa é a regra; se não for assim nem venha, pois vai morgar a parada, vai ser mais do mesmo. Parafraseando Guimarães Rosa: o que a música quer da gente é coragem! Tem que ter tesão no que faz, se não, não rola. E é isso que nos dá a liga, que nos une. Percebo isso nos olhos de cada um da banda hoje. Tem uma frase que nossa vocalista, Geanne Lima, sempre diz que é a seguinte: “canto para me curar”. Estamos todos, a seu modo, nos curando com a música, tenha certeza.








