Em uma indústria que frequentemente impõe padrões, fórmulas e tendências efêmeras, há artistas que escolhem outro caminho: o da autenticidade. É nesse território que Camaleoa vem construindo sua trajetória. Mais do que um nome artístico, ela transformou a ideia de constante mutação em um princípio criativo. Reinventa-se sem abandonar a própria essência, experimenta sem renunciar às suas raízes e faz do pop um espaço de liberdade estética, narrativa e cultural.
Natural do Ceará, Camaleoa tornou-se um dos nomes mais relevantes da nova cena pop nordestina ao unir música, direção de arte, moda e audiovisual em projetos que extrapolam o formato tradicional do mercado fonográfico. Sua caminhada ganhou um capítulo histórico em 2019, quando se tornou a primeira artista de Fortaleza a lançar um álbum visual, reafirmando um perfil criativo que entende a música como uma experiência completa, na qual som e imagem dialogam de forma inseparável.

Essa inquietação artística, segundo ela, sempre esteve presente. “Todo artista é um pouco inquieto”, afirma. Para Camaleoa, a curiosidade é o combustível que impede qualquer acomodação criativa. Embora esteja vivendo o sonho de infância de se tornar uma popstar, ela faz questão de preservar seu lado alternativo, permitindo-se explorar novos gêneros e linguagens. Essa liberdade ficou evidente em “Prateleira”, parceria com Mulher Barbada, onde realizou outro desejo antigo: incorporar o pagode à sua identidade musical.

Nos últimos anos, a cantora passou a receber comparações com grandes nomes do pop internacional, especialmente com Britney Spears. O reconhecimento, longe de alimentar uma tentativa de reprodução, tornou-se para ela um ponto de partida para afirmar sua própria identidade.
A artista reconhece que a influência da princesa do pop foi decisiva em sua formação musical, mas faz questão de destacar que seu objetivo nunca foi construir uma cópia. Pelo contrário: enquanto muitos esperariam um processo de internacionalização estética, Camaleoa escolheu aprofundar seu vínculo com o Nordeste. Regionalizar sua arte tornou-se uma decisão consciente, transformando referências globais em uma linguagem profundamente brasileira e cearense.
Essa escolha também nasce de uma realidade desafiadora. Embora já encontre receptividade em diferentes estados do país, a cantora admite que conquistar espaço dentro da própria região ainda é uma das etapas mais difíceis de sua carreira. O paradoxo revela uma realidade comum entre artistas independentes: muitas vezes, o reconhecimento chega primeiro de fora.
É justamente desse cenário que surge um dos pilares de seu trabalho: o movimento “No Ceará Tem Pop”. Mais do que um slogan, a frase tornou-se um manifesto em defesa da produção musical local e um convite para que o público enxergue o estado como um território fértil também para o pop, além dos gêneros historicamente associados à cultura nordestina.
Sua produção artística reforça esse discurso. Para Camaleoa, uma canção nunca nasce isolada. Depois da composição, imediatamente surgem imagens, cores, enquadramentos, figurinos e possibilidades narrativas. O audiovisual ocupa um lugar tão importante quanto a música, resultado de uma paixão cultivada desde a infância.
Essa relação faz com que seus projetos sejam concebidos como experiências imersivas. A artista acredita que um videoclipe não apenas acompanha uma música, mas amplia seus significados, podendo reforçar sua mensagem ou até subverter completamente as expectativas criadas pela própria canção.
Ao falar sobre representatividade, Camaleoa evita a ideia de pioneirismo isolado. Prefere reconhecer a importância de artistas que abriram caminhos antes dela, como Daniel Peixoto, Di Ferreira, Lorena Nunes, Getúlio Abelha e Pabllo Vittar. São referências que, segundo ela, ajudaram a ampliar os horizontes do pop produzido no Nordeste e mostraram que era possível construir uma identidade própria sem abrir mão das origens.
Agora, seu desejo é dar continuidade a esse movimento, contribuindo para que novas gerações encontrem um cenário mais aberto e plural. Sua ambição não está restrita ao sucesso comercial ou à construção de uma estética marcante. Ela quer deixar um legado capaz de transformar a percepção do Brasil sobre o pop cearense.
Daqui a dez anos, imagina ser lembrada não apenas como cantora, compositora, vocalista ou diretora criativa, mas como uma artista que ajudou a ampliar os espaços dedicados ao pop e aos gêneros alternativos produzidos no Ceará. Sonha em ver esse movimento alcançar o mesmo reconhecimento conquistado pelo forró, pelo piseiro e, mais recentemente, pelo trap.
Inspirada por artistas como Britney Spears, Anitta, Beyoncé e Madonna, Camaleoa acredita que a arte tem poder para provocar mudanças culturais duradouras. E talvez esse seja justamente o maior significado de seu nome: não mudar para se adaptar, mas transformar para abrir caminhos.
Enquanto o mercado ainda concentra seus holofotes nos grandes centros, Camaleoa responde com criatividade, identidade e resistência. Sua trajetória demonstra que o futuro do pop brasileiro não depende apenas de onde ele nasce, mas da coragem de quem decide reinventá-lo sem jamais esquecer suas raízes.
Entrevista na íntegra:
1. Seu nome artístico, Camaleoa, remete à transformação constante. Em um mercado que muitas vezes exige que artistas se encaixem em fórmulas, como você consegue equilibrar essa capacidade de se reinventar sem perder a essência de quem você é?
Acho que todo artista é um pouco inquieto. Até quando existem fórmulas de mercado, se o artista for curioso, questionador, vai existir uma forma de se reinventar. Eu me considero uma eterna curiosa e apesar de hoje estar realizando o sonho da minha criança (que é ser uma popstar) eu acho que nunca vou perder o alternativo 100%. Sou apaixonada por muitas coisas e sempre espero o momento de trabalhar com elas ansiosamente. Por exemplo: Amo pagode desde criança. Mas só agora em “Prateleira” feat Mulher Barbada, pude trabalhar com esse gênero. A artista inquieta em mim se realizou
2. Você vem sendo chamada por muitos de “a princesa do pop nordestino” e até comparada à Britney Spears. Como você recebe essas comparações?
Elas representam um reconhecimento importante ou também trazem o desafio de mostrar ao público que existe uma Camaleoa única, com identidade própria?
A primeira vez que eu ouvi isso, quase cai pra trás. Eu achei muita responsabilidade! Mas verdade seja dita, a similaridade com Britney em posicionamento, é um presente pra mim, que sou uma fã e que me apaixonei por música muito por causa dela. E me ajuda muito a chegar no coração do Cearense/Nordestino que mesmo que não goste de pop, conheceu e consumiu ao menos um hit de Britney Spears. Mas acho que é natural essa imagem ir sumindo, porque onde eu poderia agora estar me “internacionalizando” mais, eu estou me “regionalizando.” E é ai onde a referência vira realmente apenas referência e não cópia. Até porque não existe outra Britney, nem existirá. Eu quero muito ser a Camaleoa, com seus ídolos e referências, mas criando algo só meu.
3. Ser uma artista pop no Nordeste ainda significa enfrentar barreiras que não são impostas a quem nasce nos grandes centros da indústria musical. Em quais momentos você sentiu que precisou provar duas vezes o seu talento por carregar o selo de artista cearense?
Aqui eu tenho um ponto interessante a trazer… Eu sou mais consumida fora do Nordeste, do que no Nordeste. E isso é algo que eu quero, mas meu foco é primeiro ganhar meu Ceará, meu Nordeste e depois o Brasil. Então eu tô fazendo o movimento totalmente contrário e ainda tenho mais dificuldade em ter espaços na minha região, do que fora dela. Acredito que isso é uma dor do artista independente, não só minha. E é por isso que o meu discurso “No Ceará Tem Pop” é importante. Ele é um lembrete pra nossa própria casa e pros de fora também.
4. Você foi pioneira ao lançar o primeiro álbum visual de Fortaleza, mostrando que sua música vai além do som e dialoga com moda, direção de arte e narrativa. Quando vocêcria um projeto, o que nasce primeiro: a emoção, a imagem ou a canção? E como essas linguagens se encontram para contar uma história?
Minha mente trabalha imagens o tempo todo. Quando eu crio uma música, foco 100% nela, no que quero dizer, na atmosfera, mas após terminada eu já visualizo tudo que ela pode ser em um videoclipe. Sou apaixonada pelo audiovisual e isso é desde muito pequena! Foi natural se tornar algo inegociável pra mim, porque é algo que eu também amo, tanto quanto a música. Pra mim é um casamento, sabe? Ouvir a música, é sempre uma experiência única. Mas logo após ter um audiovisual reforçando a mensagem dela ou até quebrando todo o padrão que a música entrega? Isso pra mim é único! É como eu consumi música desde pequena e como sonho fazer as pessoas continuar me consumindo a minha.
5. O pop sempre foi um espaço de representatividade, liberdade e expressão. Na sua visão, qual é o papel de uma artista nordestina dentro desse movimento? Você acredita que sua trajetória pode abrir portas para uma nova geração de cantores e cantoras que sonham em fazer pop sem precisar abandonar suas raízes?
Gosto de pensar que eu estou aqui, porque pessoas fizeram esse movimento ser possível.
Daniel Peixoto, Di Ferreira, Lorena Nunes, Getúlio Abelha, Pabllo Vittar, entre outros, são pessoas que já trouxeram e ainda trazem impacto cultural. Me inspiro neles pra fazer algo só meu, que agregue na nossa cultura tanto quanto eles agregam. Espero muito que através do que estamos fazendo aqui, exista uma nova forma de enxergar o pop nordestino, como eu enxerguei através dessas pessoas.
6. Quando você imagina a Camaleoa daqui a dez anos, qual legado deseja deixar para a música brasileira? Você quer ser lembrada apenas pelos sucessos e pela estéticamarcante ou por ter ajudado a mudar a forma como o Brasil enxerga o pop produzido no Nordeste?
Eu quero e estou me trabalhando para ser uma artista que consegue passear por todos esses tópicos. A estética ser parte do legado, mas ter também o trabalho como compositora, vocalista, diretora criativa e o que mais a arte me permitir. Ter impacto pelo movimento criado através do meu trabalho em busca de espaço e circulação do pop e gêneros alternativos no Ceará. Eu quero ampliar cada dia mais minhas raizes para dentro da minha arte e me permitir criar coisas novas. Ter a chance de ver o pop Cearense ser tão consumido e respeitado quanto o Forró, Piseiro e atualmente até o Trap. Gosto de pensar que eu posso mudar algo, mesmo que seja a longo prazo. Assim como as divas que eu amo e me inspiro: Britney Spears, Anitta, Beyoncé e Madonna.






