Fúria Negra lança o EP “Pele” no Viva Usina e transforma a música em rito de memória, ancestralidade e existência

Artista apresenta o novo trabalho neste sábado (25), às 22h, na Sala Vladimir Carvalho, em uma obra que converte vulnerabilidade, espiritualidade e identidade em um potente manifesto poético e sonoro

Neste sábado (25), a Sala Vladimir Carvalho, na Usina Cultural Energisa, será palco de um encontro entre música, memória e ancestralidade com o lançamento do EP “Pele”, da artista Fúria Negra, dentro da programação do Viva Usina. A apresentação, marcada para as 22h, celebra a chegada de um trabalho que ultrapassa as fronteiras de um simples lançamento musical para se afirmar como uma experiência sensorial, afetiva e política, construída a partir das camadas mais profundas da existência humana.

 

Em “Pele”, Fúria Negra transforma a própria trajetória em matéria artística. O EP nasce de um processo de escuta interna, atravessado por experiências espirituais, desilusões amorosas, questionamentos e pela constante elaboração de sua identidade enquanto pessoa preta, LGBTQIA+ e gorda. A artista mergulha nas próprias vivências para revelar sentimentos muitas vezes silenciados e construir uma obra onde dor e potência caminham lado a lado. A pele, elemento central do título, aparece não apenas como superfície, mas como território de memória, resistência e pertencimento, carregando histórias individuais e coletivas.

O trabalho propõe uma reflexão sobre as múltiplas formas de existir em uma sociedade marcada por atravessamentos e desigualdades, mas também pela capacidade de reinvenção. Fúria Negra compreende que a força não é uma condição permanente ou uma armadura impossível de romper, mas um movimento contínuo de reconstrução. “As pessoas enxergam o empoderamento como uma identidade fixa, mas para sustentar essa força eu preciso atravessar dores, ilusões e vulnerabilidades”, reflete a artista, revelando a essência de um projeto que não busca esconder suas fragilidades, mas transformá-las em linguagem e poesia.

A faixa “Pele”, que conduz o universo narrativo do EP, rompe com estruturas tradicionais ao apresentar uma composição sem refrão, construída como uma narrativa contínua. A canção conduz o público por diferentes estados emocionais, explorando as origens do apego, as marcas deixadas pelas ausências e os conflitos internos que surgem diante do desejo e da perda. No entanto, a obra não permanece no lugar da dor: ela aponta para a cura, para o tempo como aliado e para a possibilidade de novos caminhos. A frase “Toda dor é por enquanto” sintetiza esse movimento de transformação e esperança.

A sonoridade do EP também revela uma construção cuidadosa e profundamente sensorial. A produção reúne talentos que ampliam a dimensão artística do projeto, com a colaboração do produtor Dope, de São Paulo, a produção musical de Big Jesi, responsável pelo baixo e pela construção melódica, além das flautas de Mari, que acrescentam uma atmosfera delicada, ancestral e quase cósmica às composições. A mixagem assinada por Gihai finaliza a paisagem sonora de uma obra que busca envolver o público não apenas pela audição, mas pela experiência completa dos sentidos.

O lançamento de “Pele” no Viva Usina reafirma a importância dos espaços culturais como territórios de encontro, celebração e valorização das narrativas que emergem das margens e ocupam o centro da criação artística. Fúria Negra apresenta um trabalho que dialoga com a ancestralidade africana, com as memórias dos corpos dissidentes e com a urgência de narrar histórias que por muito tempo foram silenciadas.

Mais do que um EP, “Pele” é uma declaração de existência. É um mergulho naquilo que nos constitui, uma homenagem às marcas que carregamos e uma celebração da possibilidade de transformar feridas em arte. Ao subir ao palco da Sala Vladimir Carvalho, Fúria Negra não apenas apresenta novas canções: ela compartilha um pedaço de sua alma e convida o público a reconhecer, na própria pele, as histórias que nos conectam enquanto humanidade.