Faz Bem Comedoria: quando a memória da cozinha de uma avó se transforma em afeto servido à mesa

Em uma casa com mais de 80 anos de história, Gabriela Espinola transforma lembranças, receitas e ensinamentos de Dona Elza de Barros Correia em uma experiência gastronômica marcada pela afetividade, pela memória e pelo sabor de comida feita com amor.

A memória também tem cheiro. Às vezes, chega pelas frestas de uma cozinha, escondida no perfume de um molho, no calor de uma panela ou no tempero de uma receita preparada com a mesma delicadeza de tantos anos atrás. Há lembranças que não envelhecem; apenas encontram novas formas de voltar. E algumas delas chegam à mesa, silenciosas, carregando consigo a voz de quem nos ensinou a amar.

Foi assim que Gabriela Espinola aprendeu a compreender a cozinha. Antes da chef, da empreendedora e da proprietária do Faz Bem Comedoria, havia uma menina que se sentava ao lado da avó, Dona Elza de Barros Correia, e observava, com atenção de criança, o ritual cotidiano dos alimentos sendo preparados. Entre panelas, temperos, conversas e gestos de cuidado, Gabriela descobria que cozinhar era muito mais do que reunir ingredientes: era uma maneira de oferecer presença.

“Eu aprendi a cozinhar com a minha avó desde pequenininha. Ela me botava lá no balcão da cozinha e eu ficava ali vendo todo o processo, ela conversando comigo, me mostrando os alimentos”, recorda.

Naquela cozinha, o aprendizado acontecia sem pressa. Gabriela absorvia receitas, mas também aprendia silêncios, gestos e afetos. Dona Elza ensinava, talvez sem perceber, que uma refeição pode carregar uma história inteira e que alimentar alguém também é uma forma de dizer “eu cuido de você”.

“Eu fui desenvolvendo o amor pela cozinha através do amor dela também pela cozinha e por mim”, revela.

Foi dessa herança afetiva que nasceu o Faz Bem Comedoria. Há oito anos, Gabriela transformou uma casa com mais de oito décadas de história em um restaurante que preserva, em cada detalhe, fragmentos de uma vida familiar. A antiga casa ganhou novas mesas, novos aromas e novos encontros, mas não perdeu aquilo que lhe confere alma: a memória.

Ali, o passado ganhou continuidade.

Entre as lembranças mais preciosas de Gabriela está o roast beef preparado pela avó. Ainda menina, ela recebia uma faca para cortar pimentões, cebolas e tomates enquanto Dona Elza conduzia o restante do preparo. O prato ficou guardado não apenas na lembrança, mas nos sentidos.

“Tinha um que ela fazia, meu Deus, que eu amava, que era um roast beef no forno”, relembra.

E, como acontece com as memórias mais profundas, não é apenas a imagem que permanece.

“Até o cheiro eu sinto.”

A frase parece abrir uma porta para um tempo que não voltou, mas que continua habitando Gabriela. Porque determinadas lembranças não precisam de fotografias. Um aroma basta. Um tempero basta. Uma receita basta.

Aos 98 anos, Dona Elza partiu, deixando na neta uma saudade imensa e um legado que encontraria na gastronomia uma maneira de permanecer. A casa onde hoje funciona o Faz Bem já fazia parte da vida de Gabriela e guardava décadas de histórias compartilhadas. Depois da perda, cada canto passou a carregar também a delicadeza da ausência.

“Eu já morava nessa casa e aquela lembrança dela… Sofri bastante com a perda dela”, conta.

Foi no encontro entre saudade e memória que Gabriela encontrou um novo caminho. Em vez de deixar que o tempo dissolvesse os vestígios daquela história, decidiu recolhê-los e devolvê-los ao cotidiano. A casa, os objetos, os utensílios e as receitas passaram a compor uma nova narrativa.

“Faz tudo isso parte dela, do que eu vivi com ela, tanto a casa quanto a comida”, afirma.

O início foi pequeno, quase doméstico como a própria origem de tudo. Gabriela começou pelo delivery e, aos poucos, foi ajeitando a casa, recuperando objetos e resgatando pedaços da história familiar.

“Comecei só no delivery, depois fui ajeitando a casa, resgatando algumas coisas. E aí criei o Faz Bem Comedoria”, explica.

O restaurante nasceu, portanto, de uma cozinha que já havia ensinado muito antes de receber clientes. Uma cozinha de família que agora abre suas portas para outras pessoas, permitindo que novos encontros se misturem às antigas lembranças.

Bandejas, pratos e utensílios que pertenciam à casa foram incorporados ao restaurante. Objetos que atravessaram décadas continuam presentes, agora servindo outras mesas e testemunhando novas histórias.

“Tem muita coisa na cozinha que era tudo da nossa casa, que eu trouxe para o restaurante. Uso no restaurante também”, conta.

É uma espécie de continuidade silenciosa. O que um dia pertenceu apenas à família passou a fazer parte da experiência de quem chega. A casa, antes cenário de memórias particulares, tornou-se também lugar de acolhimento.

Na cozinha de Gabriela, a tradição não é tratada como algo imóvel. Ela respira, se adapta e segue adiante. Os preparos são feitos diariamente, com atenção aos ingredientes, às marinadas, aos tempos de cocção e aos detalhes que conferem personalidade à comida.

Entre as especialidades estão os frutos do mar e a parmegiana, que recebe um molho artesanal inspirado nos ensinamentos de Dona Elza.

“Faço um molho artesanal, que também aprendi com ela, que é só feito à base de tomates mesmo, o alho, os temperos”, explica.

A receita preserva ainda uma escolha que parece pequena, mas carrega uma enorme carga afetiva:

“Ela não usava extrato de tomate.”

É assim que uma receita atravessa gerações. Não apenas pelo que leva, mas também pelo que preserva. Um ingrediente, uma técnica, um aroma, uma maneira particular de fazer. Pequenos detalhes que mantêm intacta uma parte de quem ensinou.

Para Gabriela, contudo, há algo que nenhum ingrediente consegue substituir: o sentimento.

“A comida é isso, tem que ter alma. Quando você faz com amor, é totalmente diferente”, afirma.

Talvez seja justamente essa alma que dê ao Faz Bem uma atmosfera tão particular. A comida chega à mesa pelos sentidos, mas encontra caminho também pela memória. O aroma desperta lembranças. O sabor aproxima. A experiência acolhe.

É uma gastronomia feita para alimentar, mas também para fazer companhia.

E, no coração dessa cozinha, Dona Elza continua presente.

“É como se ela estivesse ali comigo. Toda vez que entro na cozinha, parece que ela está ali comigo”, confessa.

A avó permanece nas receitas, nos objetos, nos aromas e nos ensinamentos. Permanece na maneira como Gabriela escolhe preparar cada prato e na compreensão de que cozinhar pode ser uma forma de preservar aquilo que o tempo jamais deveria levar.

O Faz Bem Comedoria tornou-se, assim, uma casa de memórias compartilhadas. Uma história familiar que deixou de pertencer somente às paredes onde nasceu para alcançar outras pessoas através da comida.

Porque uma cozinha pode ser muito mais do que o lugar onde se prepara uma refeição. Pode ser o lugar onde uma família se reconhece, onde uma infância permanece e onde o amor encontra uma forma concreta de atravessar os anos.

Gabriela aprendeu isso ainda menina, sentada ao lado da avó.

Hoje, cada prato preparado é também uma maneira de continuar aquela conversa.

A menina que observava Dona Elza cozinhar cresceu. A avó partiu. O tempo seguiu seu curso. Mas a receita permaneceu. O cheiro permaneceu. O gesto permaneceu.

E, sobretudo, permaneceu o amor.

No Faz Bem Comedoria, Gabriela cozinha para alimentar pessoas, mas também para manter acesa uma memória. Cada prato servido carrega um fragmento daquela casa, daquela infância e daquela mulher que ensinou, através da cozinha, que cuidar também pode ser uma forma de amar.

Talvez seja essa a beleza mais profunda da gastronomia: quando uma receita deixa de ser apenas receita e passa a carregar uma vida inteira.

No Faz Bem, a comida chega à mesa como alimento, mas também como lembrança.

E, entre o perfume de um molho, o calor de uma panela e o sabor de uma receita antiga, Dona Elza continua chegando à mesa, pelas mãos da neta que aprendeu com ela a transformar comida em afeto.

Faz Bem Comedoria

Avenida Alagoas, 549 — Bairro dos Estados, João Pessoa (PB)
Segunda a sábado, das 11h às 16h