A participação de Anitta no Sem Censura, da TV Brasil, nesta terça-feira (11), representou mais do que a presença de uma das maiores estrelas da música brasileira em um programa tradicional de entrevistas. A edição especial construiu uma espécie de travessia entre Anitta e Larissa, entre a personagem pública que aprendeu a dominar a indústria do entretenimento e a mulher que, depois de anos submetida à lógica vertiginosa da fama, parece cada vez mais interessada em compreender a si mesma. A conversa com Cissa Guimarães ganhou, assim, um caráter quase confessional, sem abandonar a dimensão pop que acompanha a artista.
O grande mérito da entrevista esteve justamente em não reduzir Anitta ao fenômeno mercadológico. Sua trajetória internacional é frequentemente narrada a partir de números, sucessos, colaborações e conquistas, mas o Sem Censura propôs outra perspectiva: o que existe depois da conquista? A cantora falou sobre os desafios de construir uma carreira global, mas também sobre o preço subjetivo de sustentar durante tantos anos uma imagem pública permanentemente disponível, performática e submetida ao olhar alheio. A própria distinção entre Anitta e Larissa tornou-se uma chave importante para compreender essa nova etapa.
Essa dimensão já havia aparecido com força no documentário Larissa: O Outro Lado de Anitta, lançado em 2025, mas agora surge associada a uma mudança artística mais ampla. A espiritualidade, o autoconhecimento e a ancestralidade deixam de aparecer apenas como aspectos pessoais e passam a ocupar lugar central na construção estética e conceitual de EQUILIBRIVM. A própria TV Brasil descreve o projeto como uma obra atravessada pela brasilidade, por símbolos de ancestralidade e por referências às religiões de matriz africana.
EQUILIBRIVM: quando a identidade brasileira deixa de ser estratégia e passa a ser linguagem
É nesse ponto que a entrevista ganha uma dimensão particularmente interessante para a análise da carreira de Anitta. Durante anos, a artista foi uma espécie de tradutora do Brasil para o mercado internacional: transitou pelo funk, pop, reggaeton e música latina, adaptou sua comunicação a diferentes públicos e construiu uma carreira internacional que transformou sua própria brasilidade em ativo cultural.
Em EQUILIBRIVM, entretanto, o movimento parece se inverter. Em vez de partir do Brasil para se adaptar ao exterior, Anitta parece partir de suas próprias referências para reafirmar aquilo que a constitui. O projeto mergulha em ritmos, símbolos, ancestralidade e manifestações culturais brasileiras, estabelecendo uma conexão entre música popular, espiritualidade e identidade. A inspiração em Carmen Miranda também é significativa: trata-se de uma artista que, em outro momento histórico, transformou elementos brasileiros em linguagem internacional.
Essa escolha representa uma mudança sofisticada de posicionamento. Anitta já não precisa provar que consegue dialogar com o mundo; ela pode agora decidir o que quer levar do Brasil para esse mundo. É uma diferença importante. A internacionalização deixa de ser apenas uma busca por pertencimento a uma indústria global e passa a funcionar como plataforma para projetar uma identidade própria.
A presença de Nídia Aranha na bancada reforçou justamente essa leitura. Responsável pela direção criativa do universo visual e conceitual de EQUILIBRIVM II, ela revelou aspectos do processo de construção estética da obra e da tentativa de traduzir visualmente essa nova fase da cantora. O projeto, portanto, não parece operar apenas no campo musical: existe uma arquitetura simbólica cuidadosamente construída em torno da ideia de equilíbrio, ancestralidade e celebração da cultura brasileira.
A espiritualidade como eixo de transformação
Outro aspecto relevante foi a forma como a espiritualidade apareceu na conversa. Em vez de funcionar como mero elemento de curiosidade sobre a vida pessoal da artista, ela surge como parte de um processo de transformação. O próprio conceito de EQUILIBRIVM sugere uma tentativa de conciliar polos que durante muito tempo pareceram incompatíveis: fama e intimidade, Anitta e Larissa, sucesso e descanso, exposição e recolhimento, mundo e interioridade.
A presença de Rodney de Oxóssi conferiu ainda outra camada à discussão. Babalorixá e antropólogo, ele participou da construção do projeto e auxiliou na representação de elementos ligados ao Candomblé, contribuindo para que referências religiosas fossem tratadas com maior responsabilidade e fidelidade. A participação também desloca o debate da simples estética para uma discussão sobre representação, respeito e responsabilidade cultural.
Essa preocupação é especialmente importante porque manifestações de matriz africana historicamente foram alvo de preconceito, estigmatização e apagamento. Ao inserir essas referências em uma obra de grande alcance popular, Anitta coloca elementos que durante décadas foram marginalizados no centro de uma produção destinada a dialogar com milhões de pessoas.
Uma bancada que ajudou a desmontar a caricatura da celebridade
A composição da bancada também foi um dos grandes acertos editoriais da edição. Nídia Aranha ofereceu o olhar da criação; Rodney de Oxóssi, o olhar antropológico e religioso; Hugo Gloss, a perspectiva de quem acompanha a trajetória pública de Anitta há anos; e Luana Xavier acrescentou uma leitura atravessada por questões de cultura, raça, gênero e religiosidade.
Essa pluralidade impediu que a entrevista se transformasse em uma simples celebração da celebridade. A presença de diferentes interlocutores permitiu que Anitta fosse observada por ângulos distintos, fazendo com que a conversa se aproximasse mais de um retrato cultural da artista do que de uma entrevista promocional convencional.
E esse talvez seja o principal triunfo editorial do Sem Censura: compreender que uma figura como Anitta pode ser analisada não apenas como cantora, mas como fenômeno de comunicação, comportamento, cultura e identidade brasileira.
O novo momento de Anitta
O que emerge da entrevista é a imagem de uma artista que parece menos preocupada em conquistar espaços e mais interessada em compreender o espaço que conquistou. Isso não significa abandono da ambição ou da dimensão pop. Pelo contrário: trata-se de uma artista que parece utilizar a experiência acumulada para escolher com maior precisão aquilo que deseja comunicar.
EQUILIBRIVM funciona, nesse sentido, quase como uma síntese de uma carreira inteira. Há o funk que a revelou, a música brasileira que a atravessa, a experiência internacional que ampliou seus horizontes e uma espiritualidade que passou a ocupar papel mais evidente em sua construção pessoal e artística.
A entrevista no Sem Censura conseguiu, portanto, apresentar uma Anitta menos interessada em sustentar o mito da “Poderosa” e mais disposta a falar sobre a mulher que existe por trás dele. Se a primeira grande revolução de Anitta foi mostrar ao mundo que uma artista brasileira poderia ocupar o centro da cultura pop global, sua nova revolução talvez seja outra: mostrar que é possível chegar ao mundo sem abandonar as próprias raízes.
E é justamente aí que EQUILIBRIVM ganha força como conceito. O equilíbrio não parece estar apenas na música. Está na tentativa de conciliar a estrela internacional com Larissa, a indústria com a espiritualidade, o espetáculo com a intimidade e a projeção global com a ancestralidade. O Sem Censura, ao abrir espaço para essa conversa, fez mais do que entrevistar Anitta: ajudou a contextualizar uma nova fase de uma artista que já não precisa apenas ser vista, agora parece querer ser compreendida.








