A cidade de João Pessoa passa a contar com uma iniciativa inovadora voltada para o bem-estar integral da comunidade LGBTQIAPN+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Queers, Intersexos, Assexuais, Pansexuais, Não-binários e outras identidades). Conduzido por dois psicólogos e um educador físico, o encontro multidisciplinar propõe um formato híbrido de cuidado que une escuta terapêutica, acolhimento das vivências LGBT+ e práticas corporais de respiração e movimento.
Mais do que uma atividade de autocuidado, a iniciativa se consolida como um refúgio para a construção de conexões reais entre pessoas que compartilham realidades semelhantes. A proposta central é que cada participante deixe o encontro experimentando um profundo sentimento de pertencimento, alívio emocional e físico, além de ampliar sua rede de apoio social.
Uma programação pensada para o acolhimento
Para garantir um ambiente seguro e integrado, a dinâmica dos encontros foi cuidadosamente desenhada para promover tanto a reflexão quanto a descontração. A programação inclui:
–Acolhida inicial: Recepção calorosa para ambientar os participantes.
–Aquecimento: Dinâmicas corporais leves para soltar o corpo e reduzir a tensão.
–Dinâmicas em grupo: Atividades lúdicas e interativas para quebrar o gelo.
–Roda de conversa terapêutica: Espaço de escuta qualificada e troca de experiências.
–Socialização e lanche: Um momento final dedicado à comunhão e ao fortalecimento de laços informais.
Bastidores: Entrevista com o idealizador, o psicólogo Jhonathan Plu
Para entender melhor os desafios e a motivação por trás do projeto, conversamos com o psicólogo e organizador Jhonathan Plu. Confira os principais trechos da entrevista:
1. De onde surgiu a ideia de criar esse espaço de acolhimento e cuidado voltado especificamente para a população LGBTQIAPN+ em João Pessoa?
Nasceu da percepção de que temos poucos espaços de cuidado coletivo em saúde mental na cidade. Muita gente chega em João Pessoa sem raízes e sem rede de apoio, e sente dificuldade de fazer amizades. Enxergava a necessidade de se apresentar com uma psicologia afirmativa LGBT+, e especialmente com propostas coletivas.
2. Quais são as principais demandas relacionadas à saúde mental que vocês percebem entre as pessoas LGBTQIAPN+ e que o encontro busca acolher?
A população LGBTQIAPN+ enfrenta o estresse de minorias: além das questões pessoais, carrega os atravessamentos sociais do preconceito e da rejeição. Isso exige um manejo terapêutico específico. Muitos LGBT têm dificuldade de sair, de confiar em outras pessoas devido aos traumas que passaram, têm os estigmas de só se relacionar focando no sexo, escassez de interações pra além dos aplicativos e redes sociais, por exemplo.
3. Como a combinação entre escuta terapêutica, acolhimento psicológico e práticas corporais pode contribuir para o bem-estar dos participantes?
Esse momento é terapêutico, mas não é psicoterapia. É um espaço de acolhimento, com escuta, interação social, aconselhamento psicológico e trabalho corporal, que por si só já é saudável. Questões mais íntimas ou difíceis de expressar em coletivo ficam para um grupo menor ou para psicoterapia individual.
4. Muitas pessoas LGBTQIAPN+ enfrentam situações de preconceito, rejeição e solidão. De que forma um espaço como esse pode ajudar a fortalecer o sentimento de pertencimento e criar novas conexões?
A sociedade tem ficado cada vez mais isolada, e isso adoece: a solidão reforça ansiedade, depressão e outros sofrimentos. Um espaço coletivo permite ver pessoas, ser ouvido, fazer amigos. A terapia individual continua essencial, mas há uma riqueza no cuidado coletivo que o consultório sozinho não alcança. Além disso, a própria população LGBTQIAPN+ carrega conflitos internos, disputas de ego e desigualdades. Se não insistirmos numa proposta coletiva de cuidado, a gente se divide e enfraquece o movimento. Fortalecer o pertencimento também é cuidar de como nos relacionamos entre nós.
5. O encontro reúne psicólogos e um educador físico. Qual é a importância dessa atuação conjunta para cuidar não apenas da saúde mental, mas também do corpo e das relações sociais?
Trabalhar a relação com o corpo, a autoestima e a autoimagem é fundamental para a saúde mental. Nossa vida não está descolada do corpo, por isso precisamos cuidar dele sem tabu e sem vergonha.
6. Que mensagem você gostaria de deixar para quem está vivendo um momento de sofrimento, solidão ou dificuldade para se reconhecer e ainda não se sente seguro para buscar ajuda?
Assumir riscos é difícil. Abrir-se para novas pessoas e falar sobre vulnerabilidades gera desconforto, mas quando feito de forma segura ajuda a amadurecer e a construir coragem para lidar com a vida. E coragem é essencial para qualquer mudança






