Filosofino lança “Casa” e anuncia “Quilombo Groove”, álbum que transforma afeto, identidade negra e aquilombamento em música

Primeiro single do novo trabalho chega nesta quinta-feira (1º) e inaugura o universo sonoro de um disco que entrelaça RAP, ragga, soul, jazz e oralidade afro-nordestina
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A música preta paraibana ganha um novo capítulo com o lançamento de “Casa”, primeiro single de Quilombo Groove, novo álbum do artista independente pessoense Filosofino. A faixa chega ao público nesta quinta-feira (1º) e funciona como uma espécie de porta de entrada para o universo conceitual de um disco que será lançado em novembro e que articula RAP, ragga, soul, jazz, cultura popular e oralidade afro-nordestina. Mais do que apresentar novas canções, Filosofino propõe uma experiência de escuta atravessada por identidade, afeto, pertencimento e pela necessidade de construir espaços coletivos de proteção e existência.

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O conceito de “Casa” nasce de uma compreensão ampliada da palavra. Para Filosofino, casa não se restringe a uma construção física, mas representa o lugar onde um indivíduo se reconhece, se sente acolhido e encontra condições para se nutrir, preservar e reconstruir. A ideia também aparece como uma extensão do próprio corpo. É a partir dessa perspectiva que a música questiona a maneira como construímos relações afetivas e, sobretudo, o quanto somos capazes de ocupar em nós mesmos o lugar de segurança que tantas vezes procuramos no outro.

A faixa também estabelece uma conexão direta com o conceito de aquilombamento que atravessa Quilombo Groove. Se “Casa” começa pelo indivíduo, o álbum amplia esse movimento em direção ao coletivo. O que inicialmente é abrigo pessoal pode se transformar em espaço compartilhado, território de encontro e construção conjunta. “É o que tento trazer na construção das letras desse disco. Algo que vai de dentro pra fora. Do intelecto pra ação. Do individual para o coletivo”, explica Filosofino.

O novo trabalho surge, portanto, de uma compreensão do amor que não se limita à dimensão romântica. O artista investiga o afeto entre pessoas negras como possibilidade de criação de vínculos, segurança e resistência. Em sua perspectiva, existe uma cobrança social para que o indivíduo aprenda primeiro a se amar sozinho, mas essa construção nem sempre considera as condições concretas de quem cresceu atravessado por inseguranças, violências e tensões. Para Filosofino, encontrar no outro um espaço de confiança também pode ser uma forma de cuidado e resistência.

“Casa” tem composição e voz de Filosofino, produção fonográfica de Zebb e masterização de Guirraiz. A faixa conta ainda com a participação de Ivo Limeira na guitarra e Tarcisio em Chamas no trompete, ampliando a textura instrumental do single e reforçando a proposta de encontro entre diferentes referências musicais. A canção inaugura uma sequência que culminará no lançamento de Quilombo Groove, previsto para novembro.

Entre poesia, RAP e cultura afro-nordestina

Filosofino é músico preto, tatuador e poeta, natural de João Pessoa. Sua trajetória artística foi construída em diferentes espaços da cultura urbana, passando pelas batalhas de poesia, palcos e SoundSystems. Ao longo da carreira, lançou mais de 20 faixas, sendo duas delas premiadas em festivais de música.

Sua identidade artística é construída a partir da combinação entre diferentes linguagens. O RAP permanece como eixo central, mas dialoga com o ragga, o soul, o jazz e a oralidade afro-nordestina. São referências que não aparecem apenas como elementos estéticos, mas como parte de uma pesquisa pessoal sobre pertencimento, ancestralidade e as possibilidades de narrar a própria existência.

Em Quilombo Groove, essa trajetória encontra um novo estágio. O artista explica que cada trabalho representa um recorte de determinado momento de sua vida e que a criação musical acontece, sobretudo, a partir dos encontros. O álbum nasce justamente da aproximação entre sua escrita e a produção musical de Zebb, além das contribuições de outros artistas e amigos que atravessam sua caminhada.

“Acho que a maturação é tanto musical quanto pessoal. Acho que é sempre sobre ter algo a mais a dizer e cantar, do que sobre algo que não foi dito”, afirma.

A experiência acumulada nas batalhas de poesia e nos palcos também permanece como fundamento do projeto. Segundo Filosofino, a poesia falada continua presente, enquanto o disco passeia por diferentes vertentes do hip-hop, do boom bap à drill, sem abandonar a dimensão de mobilização social historicamente associada ao RAP.

Ao mesmo tempo, o artista identifica em seu novo momento uma tentativa de olhar para a vida por uma perspectiva menos marcada exclusivamente pela dor. “Tenho aprendido a não cantar só minhas lágrimas”, resume. A frase sintetiza uma das mudanças importantes apresentadas pelo álbum: a possibilidade de falar sobre a existência negra não apenas a partir da sobrevivência, mas também do sonho, do amor, da alegria, da construção e da imaginação de um futuro diferente.

Um quilombo sonoro

O próprio título do álbum sintetiza esse desejo. Quilombo Groove combina a ideia histórica e simbólica do quilombo com a dimensão musical do groove. O resultado é uma obra que procura compreender a música como espaço de encontro, circulação de saberes e fortalecimento coletivo.

Filosofino recorre ainda à figura dos Griots, tradicionais guardiões e transmissores da memória pela oralidade, para explicar sua relação com a palavra. Sua produção parte da experiência individual, mas busca alcançar algo maior: comunicar histórias, ideias e aprendizados capazes de estabelecer uma conexão com quem escuta.

“Falo de vivência e ciência porque eu acredito que tudo que escrevo passa por esse meu ser no mundo”, explica.

É nesse ponto que “Casa” ganha uma dimensão ainda maior dentro do projeto. A primeira música do álbum não fala apenas sobre encontrar abrigo. Ela pergunta onde esse abrigo está, quem pode construí-lo e como ele pode deixar de ser uma experiência exclusivamente individual para se tornar uma possibilidade coletiva.

O single chega, portanto, como o primeiro movimento de um disco que pretende transformar vulnerabilidade em força, afeto em território e encontro em possibilidade de existência. Em Quilombo Groove, Filosofino não abandona a crítica social característica de sua trajetória, mas abre espaço para cantar também aquilo que deseja preservar: os vínculos, os sonhos, a autoestima, a cultura e a capacidade de pessoas negras construírem juntas seus próprios lugares de pertencimento.

ENTREVISTA | FILOSOFINO AO PAPO POP

Papo Pop: “Quilombo Groove” nasce do encontro entre RAP, ragga, soul, jazz e a oralidade afro-nordestina. Como esse álbum representa a maturação da sua identidade artística e o que você queria dizer musicalmente que ainda não havia conseguido dizer nos trabalhos anteriores?

Filosofino: Acima de tudo eu acredito que cada trabalho traz um recorte de um momento e de um sujeito no mundo. Acredito que a criação musical é um encontro. É até possível fazer um Groove sozinho, mas quando a gente encontra com o outro, em sua individualidade e em conexão, nasce algo único. E Quilombo Groove é um retrato do encontro do meu rap com a produção musical de Zebb e as diversas manifestações musicais de outros amigos próximos e artistas que admiro. Acho que a maturação é tanto musical quanto pessoal. Acho que é sempre sobre ter algo a mais a dizer e cantar, do que sobre algo que não foi dito.

Papo Pop: O primeiro single, “Casa”, fala sobre pertencimento, acolhimento e sobre aprender a ser casa para si antes de transformar outra pessoa em lugar seguro. Como essa ideia de “Casa” abre as portas para o universo que você constrói ao longo de “Quilombo Groove”?

Filosofino: O conceito de “Casa” pra mim nasce da compreensão de casa enquanto local de nutrição e também uma extensão do próprio corpo. Casa é o universo do indivíduo, é onde a gente se preserva e se constrói. É uma música que traz uma postura frente ao amor extremamente racional e defensiva. É o que acontece quando aquele lugar que era pra ser abrigo se torna lugar de sofrimento. Nós nos fechamos. Fazer dessa casa um conjunto que se torne um quilombo, exige confiança, baixar armas e construir junto. É o que tento trazer na construção das letras desse disco. Algo que vai de dentro pra fora. Do intelecto pra ação. Do individual para o coletivo.

Papo Pop: O álbum propõe um movimento de autovalorização dos corpos negros atravessados pelo amor e, ao mesmo tempo, fala de aquilombamento. Para você, como o amor, o afeto e a conexão entre pessoas negras podem ser entendidos também como ferramentas de resistência dentro do “Quilombo Groove”?

Filosofino: Existe uma ideia de um amor próprio de sobrevivência que acaba virando uma coisa que também marginaliza a gente, sabe? Antes de receber ou dar amor a alguém, as pessoas dizem que precisamos nos amar primeiro. Mas como é que a gente aprende a amar se tudo que a gente vive é tensão e insegurança? Toda relação de afeto estabelecida passa a ser referência de local de segurança. Se qualquer amor já é um pouquinho de saúde, encontrar em alguém lugar seguro com quem se possa sonhar e construir, me parece uma boa estratégia de resistência.

Papo Pop: Você carrega na trajetória as batalhas de poesia, os palcos e os SoundSystems, além de mais de 20 faixas lançadas. O que dessas experiências está presente em “Quilombo Groove” e o que o álbum revela sobre o Filosofino que talvez ainda não tivesse aparecido nos trabalhos anteriores?

Filosofino: Com certeza a poesia falada tá presente desde sempre. Nesse trabalho a gente tem de boom bap a drill, mas sem esquecer que o hip-hop é um lugar de mobilização social. É importante nunca largar o rap de mensagem. Tem também uma ótica que procura ser mais otimista pra vida. Tentar se render mais às artesanias da vida, sonhar mais, pensar um futuro melhor pra si e para os meus semelhantes. Tenho aprendido a não cantar só minhas lágrimas.

Papo Pop: Você define sua arte como uma forma de cantar sua “vivência e sua ciência”. Ao chegar a um álbum chamado “Quilombo Groove”, que reúne identidade negra, ancestralidade, cultura popular, groove e experiência pessoal, o que você espera que o público leve consigo depois de atravessar esse quilombo sonoro?

Filosofino: Falo de vivência e ciência porque eu acredito que tudo que escrevo passa por esse meu ser no mundo. E que, como os antigos Griots, todo poeta de tradição oral comunica seus ideais, histórias, lições de vida. Eu espero que o público que me ouve caminhe um pouco ao meu lado, ouça o que tenho a dizer, e sinta também como eu sinto. A música é essa conexão. É isso que faz com que valha a pena.