Lau Capym transforma vivências, afetos e identidade em manifesto sonoro no EP “Más Línguas”

Entre a liberdade estética e a afirmação de si, artista paraibana constrói um trabalho que transcende gêneros e traduz a música como território de coragem, prazer e reinvenção coletiva

A cantora, compositora e performer Lau Capym apresenta ao público, no dia 11 de dezembro, o EP “Más Línguas”, um projeto que marca não apenas uma nova fase em sua trajetória, mas um verdadeiro ponto de virada estética, emocional e artística. Mais do que um conjunto de faixas, o trabalho surge como um manifesto de liberdade sonora, onde gêneros como bolero, R&B e influências da macumba coexistem em uma construção autoral potente e sem amarras.

Antes do lançamento completo, Lau antecipa duas faixas: “Interlude”, com participação de Vó Mera, no dia 3 de dezembro, e o single “Más Línguas”, no dia 4, música que dá nome ao EP e carrega um simbolismo íntimo e antigo na vida da artista.

“Sonhei com esse nome há anos, ainda no final da pandemia. Sempre soube que seria o título de um trabalho grande”, revela. Para ela, o projeto representa um rito de passagem, quase como um encerramento de ciclo acadêmico e existencial. “É como apresentar um TCC depois de um ano de estudo e criação.”

Foto: divulgação.

E essa analogia não é gratuita. “Más Línguas” possui estrutura e densidade que evidenciam um processo intenso de construção. Ao longo de cinco faixas, Lau costura parcerias com nomes como Bixarte, Vó Mera, Filosofino, Clara Potiguara e Pedro Regada, criando um mosaico de sonoridades e experiências que expandem os limites do pop contemporâneo feito na Paraíba.

Foto: divulgação.

O EP se inicia com “Eu Não Morri”, uma interlude em colaboração com Vó Mera, e segue com “Luz Acesa”, ao lado de Bixarte e Filosofino. Em “Como Eu Quero”, Lau assume o protagonismo solo, enquanto “Sereia”, com Clara Potiguara e Pedro Regada, adiciona novas camadas ao projeto. A jornada culmina na faixa-título, que reúne ainda A Fúria Negra, Bonyva, Manu Lima e a participação afetiva de sua sobrinha, Laís, nos backing vocals.

O resultado é um trabalho que transita entre o deboche e a introspecção, entre o prazer e o autoconhecimento.

“Esse álbum fala de amor, de se sentir bem, de rir, mas também de se entender. É cura também”, define a artista.

Entre territórios, referências e identidade

Embora tenha nascido em Marabá, no Pará, Lau Capym construiu sua trajetória artística na Paraíba, onde chegou ainda muito pequena. Essa dualidade territorial, no entanto, não se traduz em distância, mas em inspiração. “Tenho muito respeito pela história dos meus pais e uma conexão cultural com o Norte. A forma como eles trabalham timbres e ritmos é muito ousada e sensual. Isso me inspira”, afirma.

Essa influência dialoga diretamente com o Nordeste, região que, segundo Lau, também pulsa inovação, especialmente na música e na dança.

“O mundo está assistindo passos do Norte e Nordeste viralizarem no pop. Isso é algo que venho estudando e incorporando.”

Pop como gesto político

Em um cenário ainda centralizado nos grandes eixos da indústria musical, consolidar uma cena pop na Paraíba se torna, inevitavelmente, um ato político. Para Lau, essa construção vai além da estética: é sobre pertencimento, autonomia e visibilidade.

“O sonho pop sempre veio de referências externas, mas hoje ele é fortalecido por artistas brasileiras, principalmente mulheres. Minha meta é ver um festival 100% paraibano, com artistas locais sendo autênticos. Isso, pra mim, é um gesto político poderoso.”

Amor, coragem e narrativa própria

O amor, tema recorrente em sua obra, ganha novas camadas em “Más Línguas”. A artista, que também atua como cartomante há mais de uma década, utiliza essa vivência para aprofundar suas composições.

“Ouvi muitas histórias ao longo desses anos. Tentei relacionar com minhas experiências e trazer isso sem medo.”

A proposta, segundo ela, é fugir do óbvio. E isso passa, sobretudo, pela coragem de se expor.

“O que diferencia é a verdade. É um privilégio poder cantar sobre o que se vive.”

Uma artista que não cabe em um formato

Multifacetada, Lau transita entre música, audiovisual e performance com naturalidade. Essa característica, longe de ser um complemento, é essencial para sua identidade artística.

“Arte nunca foi só som pra mim. Sempre envolveu estética, presença, imagem. Mesmo sem recursos ideais, eu estudo, testo e me junto com quem vibra na mesma frequência.”

Essa liberdade criativa também se reflete no próprio processo de produção do EP. Ao se permitir experimentar sem se prender a rótulos ou expectativas de mercado, Lau encontrou um caminho mais autêntico.

“Se eu pensar demais em encaixar, eu travo. Esse trânsito entre gêneros vem da minha vivência, não é estratégia.”

Coletividade como força criativa 

As parcerias presentes no EP não são apenas participações pontuais, mas fruto de convivência e troca dentro da cena paraibana.

“São artistas que eu consumo, que fazem parte do meu dia a dia. O projeto deixa de ser só meu e vira algo coletivo.”

Essa construção conjunta reforça a potência da cena local, que, segundo Lau, não precisa mais olhar para fora para se legitimar. “Tem muita gente criando com identidade aqui. Quando a gente se junta, isso fica ainda mais forte.”

O nascimento de uma nova artista

Definido pela própria artista como um “corte”, “Más Línguas” simboliza uma ruptura com a necessidade de pertencimento a padrões. “Foi o momento de parar de tentar caber e só ser.”

O processo, no entanto, exigiu dedicação técnica e emocional. Entre estudos, inseguranças e decisões criativas, Lau emerge mais consciente e firme em sua proposta. “Hoje eu sei melhor o que quero dizer e como quero existir na minha arte, mesmo que isso incomode.”

Com produção executiva de Caroline Leite, direção musical de Big Jesi, masterização de DJ Guirraiz e visualizers assinados por Natália Di Lorenzo, o EP é realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo e chega como um dos trabalhos mais consistentes e emblemáticos da nova música paraibana.

Mais do que um lançamento, “Más Línguas” é a afirmação de uma artista que entende sua arte como extensão de si, múltipla, livre e, acima de tudo, verdadeira.