Há trajetórias que não se constroem em linha reta, mas em espiral. Caminhos que, à primeira vista, parecem dispersos, mas que, ao serem revisitados com maturidade, revelam uma coerência profunda. É nesse entrelaçamento de experiências que se inscreve a história de Eraldo Souza, multiinstrumentista e produtor musical cuja formação atravessa bandas marciais, igrejas, bailes, o rigor da música erudita e a liberdade da música popular.

No início, não havia um plano rígido, mas uma entrega genuína às oportunidades. Inserido desde cedo em ambientes musicais diversos, ele encontrou na prática cotidiana uma escola viva. A igreja e as bandas baile, especialmente, foram territórios de aprendizado intenso, onde a versatilidade não era escolha, mas exigência. Com o tempo, os encontros com outros músicos abriram novas portas, ampliando horizontes e consolidando uma percepção que só viria depois: aquela diversidade não era fragmentação, mas fundamento. Hoje, ela se revela como bagagem essencial na construção de uma identidade musical sólida e plural.

Essa formação, no entanto, não se limitou à vivência empírica. O percurso também passou pelo conservatório e pela universidade, criando um equilíbrio entre teoria, técnica e experiência prática. A compreensão de que um músico completo precisa transitar entre o ouvido, a leitura e a comunicação com o mundo tornou-se um norte. Mais do que uma exigência técnica, essa tríade se desdobrou em um olhar ampliado sobre a música como linguagem universal. O contato com diferentes culturas, tanto no Brasil quanto no exterior, expandiu não apenas seu repertório, mas sua sensibilidade como educador e produtor musical.
A experiência internacional, especialmente em cruzeiros e produções de alto nível, trouxe consigo um novo grau de exigência. Diante de públicos de mais de vinte países, a música deixou de ser apenas expressão para se tornar também adaptação, escuta refinada e comunicação imediata. O sonho de viajar o mundo através da música encontrou nesse contexto um campo fértil, ainda que desafiador. Entre negativas e descrenças, persistiu uma visão de futuro que o impulsionou a buscar crescimento constante. Foi nesse ambiente que a versatilidade, o domínio de múltiplos instrumentos e a fluência em outra língua se mostraram decisivos, redefinindo sua postura artística e ampliando sua compreensão sobre o papel do músico no mundo.
Essa consciência se reflete diretamente na forma como ocupa diferentes funções dentro da música. Como multiinstrumentista, sideman, arranjador e diretor musical, Eraldo Souza compreende que o protagonismo nem sempre está no destaque, mas na escuta. Silenciar o ego, nesse contexto, não significa ausência, mas presença consciente. É entender que cada projeto carrega uma identidade própria e que o papel do músico é servir a essa construção coletiva com sensibilidade e precisão. Sua assinatura artística se manifesta nos detalhes, na intenção e na forma como o som é tecido em conjunto, em um exercício contínuo de equilíbrio entre individualidade e coletividade.
No campo da educação, essa visão se aprofunda. Atuando com alunos de diferentes idades, ele reconhece a importância de preservar a essência do fazer musical, baseada na escuta, na vivência coletiva e no respeito aos processos. Ao mesmo tempo, entende que o ensino precisa dialogar com o presente. As novas gerações chegam com outras referências, outras formas de aprender e de se relacionar com a música. Por isso, aposta em metodologias que estimulam a autonomia criativa, integram tecnologia e rompem com modelos tradicionais. O educador, nesse cenário, torna-se mediador de experiências, conectando tradição e inovação de forma orgânica.
Sua trajetória transita ainda por diferentes universos criativos. Na música de massa, encontra a potência da conexão direta com o público. Na música instrumental, experimenta a liberdade de explorar sonoridades e ideias pessoais. No ensino, descobre novas formas de criação a partir do compartilhamento. Já na produção autoral, vislumbra um território onde todas essas dimensões se encontram, ainda que reconheça o desafio de dedicar mais tempo a esse espaço nos próximos anos. Para Eraldo, a liberdade criativa não está presa a um único lugar, mas na capacidade de se mover entre diferentes contextos com autenticidade.
Ao olhar para a cena paraibana, seu discurso é ao mesmo tempo crítico e esperançoso. Ele reconhece a riqueza cultural e o talento existente, mas aponta para a fragilidade das estruturas que sustentam essa produção. A falta de continuidade em políticas culturais, a dificuldade de acesso a espaços e a necessidade de maior profissionalização dos próprios artistas ainda são entraves. Para ele, viver de música hoje exige não apenas domínio técnico, mas նաև conhecimento em gestão de carreira, empreendedorismo e valorização do próprio trabalho. Ainda assim, enxerga uma geração mais consciente, produzindo com identidade e qualidade, pronta para ampliar os horizontes da música paraibana.
Quando pensa em legado, Eraldo Souza não se ancora em títulos ou conquistas, mas nas pessoas. Seu desejo é contribuir para a formação de músicos mais conscientes, capazes de compreender a música como expressão, profissão e ferramenta de transformação. Mais do que ensinar a tocar, ele busca inspirar trajetórias que carreguem propósito, sensibilidade e verdade.
Confira a entrevista na íntegra:
1. Você iniciou sua trajetória muito cedo, passando por bandas marciais, igreja, rock, música erudita e popular. Em que momento você percebeu que essa diversidade não era dispersão, mas a base da sua identidade musical?
No início da carreira, não tem muita escolha. Eu apenas aproveitei as oportunidades que apareceram, eu sempre estive em ambientes musicais bem diferentes, a minha base foi tocando na igreja e bandas baile, onde temos uma diversidade musical gigante, tocamos todos os ritmos e estilos possíveis. Depois vamos conhecendo outros músicos, onde somos convidados para novos trabalhos. Hoje vejo que realmente todos os caminhos que trilhei me ajudaram com a minha identidade musical e toda diversidade, virou bagagem musical.
2. Sua formação une conservatório, universidade e uma vivência prática intensa no Brasil e no exterior. Como esses três pilares se equilibram hoje no músico e no educador que você se tornou?
Uma vez me disseram que seu eu quisesse viver de música, teria que ser um músico completo, ou seja, “tocar de ouvido”, ler partitura e saber falar outras línguas, mas tudo é um processo e leva tempo, sempre tive a sorte de estar perto de grandes músicos, que me incentivaram e aconselharam, e é isto que eu tento trazer para meus alunos e trabalhos que participo. Portanto a universidade, a noite e as experiências por todos os lugares do Brasil e do mundo, me fizeram experienciar as diversas culturas, o que me deu um leque e abriu a minha mente, e me tornou melhor como educador e produtor musical
3. A experiência internacional, especialmente em cruzeiros e produções com certificação da Broadway, exige uma versatilidade extrema. O que o contato com públicos de mais de 20 países transformou na sua escuta e na sua forma de tocar?
Desde muito novo tinha o desejo no meu coração de viajar o mundo, um dia disse para mim mesmo que seria músico profissional, e queria realizar aquele sonho com minha profissão, porém sabia que não seria fácil, sempre tenho um olhar a frente em tudo que faço, ouvi muitos nãos e muita gente dizendo que não ia dar certo, que música não tinha futuro, tanto de amigos, quanto de parentes próximos, todos só acreditam quando te ver já no auge. No Entanto, já tinha ouvido falar que Cruzeiros era muito bom, tanto para o currículo, quanto a parte financeira. E na minha primeira oportunidade, eu já comecei a procurar saber como eu poderia crescer naquele ambiente, pois eu comecei trabalhando com Party Band, tocávamos em todos os ambientes do navio. Conversando com um amigo brasileiro, que trabalhava em um musical que contava a história do Jazz, ele me ajudou e me contou como eram feitas as audições para musicais nível Broadway. E assim eu fiz, realmente a versatilidade, tocar vários instrumentos e ter um Inglês bom, fez toda diferença. Posso dizer que essa experiência me fez ter outra visão como músico e me tornar um músico melhor. Minhas condutas realmente mudaram após esta experiência.
4. Você domina diversos instrumentos e ocupa com frequência o lugar de sideman, arranjador e diretor musical. Como é silenciar o ego para servir à música coletiva sem perder a própria assinatura artística?
Ser multiinstrumentista e atuar muitas vezes como sideman, arranjador ou diretor musical me ensinou que a música sempre precisa ser maior do que quem está no palco. E sempre digo isto, para todos quem me cercam, não adiantar querer ser maior que a música. Silenciar o ego não significa se anular, mas compreender qual é a necessidade daquele momento musical e servir a ela com muita sensibilidade. Cada projeto que produzo e/ou participo, tem uma identidade própria, um artista central, uma proposta estética e emocional. Meu papel é contribuir para que essa visão aconteça da melhor forma possível. Isso exige escuta ativa, respeito ao coletivo e, principalmente, maturidade para entender que tocar menos, às vezes, comunica muito mais. Ao mesmo tempo, acredito que a assinatura artística não está apenas no protagonismo, mas na intenção, no cuidado com os detalhes e na forma como se constrói o som no coletivo. Sou apenas um condutor e não o dono da verdade. Sempre dou voz a todos no Grupo. Mas vejo isto como um exercício constante de equilíbrio, servir à música coletiva sem deixar de ser verdadeiro musicalmente. Quando todos trabalham com esse espírito, o resultado deixa de ser individual e passa a ser algo maior.
5. Como educador que já formou gerações de músicos e hoje atua em uma instituição histórica como a EEMAN, o que você acredita que precisa ser preservado no ensino da música e o que precisa urgentemente ser reinventado?
Acredito que o ensino da música precisa preservar a essência humana do fazer musical. A escuta atenta, o respeito aos processos, a vivência coletiva e a construção da musicalidade como forma de expressão continuam sendo pilares que não podem se perder. A tradição tem um papel fundamental, porque ela nos conecta a uma história, a uma linguagem e a valores que foram construídos por muitas gerações antes de nós. Por outro lado, como educador de pessoas de várias idades, que vão dos 8 aos 60 anos em média, preciso ter um olhar mais firme para não deixar morrer tudo que foi construído,e o que precisa ser reinventado é a forma como nos relacionamos com o aprendizado. Os alunos de hoje chegam com outras referências, outras maneiras de consumir música e outras expectativas sobre o próprio futuro profissional. Ignorar isso seria distanciar o ensino da realidade. Minhas aulas tanto de instrumento quanto das aulas em coletivo, eu vou pelo lado da sala de aula invertida e fujo da forma tradicional. Portanto, acredito que, é necessário integrar tecnologia, estimular a autonomia criativa e preparar o estudante não apenas para tocar bem, mas para compreender seu lugar no mundo da música contemporânea. Vejo o educador musical cada vez mais como um mediador de experiências, alguém que conecta tradição e inovação. Preservar o que forma a sensibilidade artística e reinventar aquilo que amplia possibilidades talvez seja o grande desafio e também a grande beleza de ensinar música hoje.
6. Sua trajetória transita entre a música de massa, a música instrumental, o ensino formal e a produção autoral. Onde você sente maior liberdade criativa e por quê?
A liberdade criativa, para mim Eraldo, não está necessariamente ligada a um único espaço, mas à forma como consigo me relacionar com cada contexto musical. A música de massa me ensina sobre comunicação direta, conexão com o público e a responsabilidade de fazer a música acontecer de forma coletiva e acessível, eu fico muito feliz ao final de cada apresentação em massa, e vê pessoas virem falar comigo e que adoraram o solo da
Música X ou Y, as vezes mesmo sem conhecer e saber exatamente o que eu fiz, isto é bastante gratificante. Já a música instrumental abre um campo maior de experimentação, onde posso explorar sonoridades, e deixar fluir a minhas ideias pessoais. Ja no ensino, encontro uma liberdade diferente; a de transformar experiências em caminhos para outras pessoas. Muitas vezes, ao explicar um conceito ou conduzir um “time musical”, surgem novas perspectivas criativas que também alimentam minha própria musicalidade. A produção autoral talvez seja o lugar onde todas essas vivências se encontram. Confesso que ainda peço muito nesta parte, dou mais atenção a outras coisas e esqueço de colocar minhas composições instrumentais e gravá-las, minha meta para os próximos anos. No fim, cada ambiente revela uma forma diferente de liberdade, e é justamente essa transição entre mundos que mantém o processo artístico vivo para mim
7. A Paraíba tem uma riqueza musical imensa, mas ainda enfrenta desafios de visibilidade e estrutura. A partir da sua experiência, o que falta para que músicos locais consigam viver com dignidade e reconhecimento do próprio trabalho?
A Paraíba possui um celeiro musical muito rico, construída a partir da diversidade cultural, da força das tradições e da criatividade dos seus artistas. O talento nunca foi o problema. O grande desafio ainda está na estrutura que sustenta esse talento ao longo do tempo. Acredito que a continuidade nas políticas culturais, maior valorização da música autoral e a criação de caminhos mais sólidos entre formação, mercado e circulação artística. Muitos músicos são altamente preparados musicalmente, mas falta preparo artístico, sabe escrever um projeto, valorizar o seu trabalho na hora que cobrar o seu cachê. Por isto, acredito que há barreiras criadas pelos próprios músico que não correm atrás de melhorar. Os que estão perto de mim, sempre aconselho e comento as minhas experiências.
Por outro lado sabemos da dificuldade que para acessar espaços, editais, circuitos profissionais e condições justas de trabalho. Por isto é importante a profissionalização do artista, não apenas no aspecto técnico, mas na gestão de carreira, empreendedorismo e entendimento do próprio valor profissional. Viver de música exige hoje múltiplas competências, e nem sempre o músico tem acesso a essa formação. Mas
Tenho esperança porque vejo uma geração cada vez mais consciente, produzindo meus materiais com identidade e qualidade. A música paraibana tem tudo para ocupar ainda mais espaços e por onde passei, levei a música da nossa terra
8. Quando você olha para tudo o que construiu como artista, professor e produtor, que tipo de legado você espera deixar para os músicos que estão começando agora?
Quando penso em legado, não imagino algo ligado apenas às conquistas ou aos palcos que passei, mas às pessoas que, de alguma forma, seguirão fazendo música com mais consciência e confiança. Se eu puder contribuir para que músicos que estão começando entendam que é possível construir uma trajetória com dedicação, ética e sensibilidade, já estarei bastante realizado. Pois, para mim a ideia de que a música vai além da técnica ou do reconhecimento. Ela é também responsabilidade, escuta, colaboração e respeito aos processos, sempre falo que, nem sempre o caminho é rápido ou fácil, mas é possível crescer sem perder a essência e seguir no que você acredita. Procuro mostrar que ser músico hoje envolve aprender continuamente, adaptar-se e, ao mesmo tempo, preservar a própria identidade artística. Meu desejo é que as novas gerações se sintam preparadas não apenas para tocar bem, mas para pensar a música como profissão, como expressão e como transformação social.







