Em um Brasil plural, onde as fronteiras sonoras se expandem e se reinventam, surge um conceito que não apenas nomeia, mas reivindica pertencimento: a Música Popular Nordestina, ou simplesmente MPN. Mais do que uma sigla, o termo carrega em si a força de uma identidade coletiva, uma resposta artística à necessidade de reconhecer, valorizar e reposicionar a riqueza cultural do Nordeste dentro da indústria musical brasileira.

Para Cecília Albuquerque, integrante do grupo As Sabiaras, a criação do termo nasce justamente da impossibilidade de encaixe em rótulos tradicionais. Segundo ela, a MPN é uma tentativa de traduzir uma musicalidade que atravessa ritmos, territórios e histórias, sem se limitar a um único gênero. Trata-se de uma síntese viva da cultura nordestina, onde cada acorde carrega um traço de origem reconhecível, quase como uma assinatura sonora do território.

Essa construção passa diretamente pela fusão de ritmos ancestrais e populares. Coco, ciranda, xaxado, baião e xote aparecem como pilares na sonoridade do grupo, não apenas como referências, mas como estruturas ativas que moldam a identidade musical. A percussão ganha protagonismo, enquanto as letras dialogam com tradições orais como o repente e o coco de embolada, incorporando expressões do cotidiano e formas de falar que são próprias da vivência nordestina.

No entanto, a MPN não se constrói apenas na preservação. Existe um tensionamento constante entre tradição e inovação. Cecília destaca que compreender a origem e a evolução desses ritmos é essencial para que a experimentação não apague suas raízes. Ao mesmo tempo em que abre espaço para novas possibilidades estéticas, o movimento reconhece e reverencia mestres e mestras que mantêm vivas as formas mais tradicionais, como os trios de forró pé de serra e os grupos de coco de roda.
Há também uma dimensão política inegável nesse movimento. Fortalecer o termo Música Popular Nordestina é, sobretudo, um ato de afirmação. É declarar que a produção artística da região não precisa ser diluída em categorias genéricas para ser reconhecida. Pelo contrário, ela possui densidade, história e singularidade suficientes para ocupar um espaço próprio, com nome e identidade definidos.
Essa afirmação, no entanto, ainda enfrenta desafios. Embora o Nordeste esteja cada vez mais em evidência no cenário cultural brasileiro, persistem olhares estereotipados que reduzem sua complexidade. A MPN surge, então, como ferramenta de reposicionamento, convidando o público, especialmente fora da região, a enxergar essa produção com mais profundidade e menos caricatura.
No caso das As Sabiaras, essa proposta se desdobra também no campo visual e performático. Figurinos, cenografia e discurso artístico são pensados para refletir a cultura popular paraibana sem cair em representações simplistas. A intenção é clara: traduzir a multiplicidade do Nordeste em linguagem contemporânea, mantendo a essência intacta, mas aberta ao diálogo com o presente.
A Música Popular Nordestina, portanto, não é apenas um gênero em ascensão. É um movimento que reorganiza narrativas, amplia escutas e reposiciona o Nordeste como protagonista de sua própria história sonora.
Confira a entrevista na íntegra:
1. Cecília, o termo MPN (Música Popular Nordestina) vem sendo cada vez mais citado. Pra você, o que define de fato esse conceito e por que ele é importante nesse momento da música brasileira?
Na verdade, usar esse termo foi uma forma de tentar traduzir o que era a música das Sabiaras, já que a gente não se encaixava em uma coisa só. Nós pesquisamos ritmos e elementos da cultura popular nordestina e tentamos trabalhar esses elementos em nossa música, de uma maneira que fique fácil de reconhecer de onde nós somos. Como a gente sabe, o nordeste é rico em cultura, em ritmos e musicalidade. Penso que Música Popular Nordestina traduz essa musicalidade viva do nordeste, algo que é só nosso e que quando escutamos, já entendemos que aquele som não é apenas brasileiro, é do nordeste do Brasil.
2. A MPN propõe uma união de ritmos tradicionais do Nordeste. Quais sonoridades vocês trazem para o trabalho das As Sabiaras e como acontece essa mistura na prática?
A gente começou trabalhando ritmos como as levadas do coco da Paraíba, a ciranda, xaxado, baião, xote. Em geral trabalhamos com maior força a parte percussiva desses ritmos, colocando eles em evidência. Mas as letras das músicas também levam esses elementos, em Se tu for eu vou, por exemplo, buscamos trazer essa agilidade nas frases e o jogo de palavras muito encontrados no repente e no coco de embolada, falamos do nosso cotidiano e formas de falar que são muito usadas na nossa linguagem como por exemplo: pingo de mei dia.
3. Ritmos como forró, coco, maracatu, baião e xote carregam histórias muito fortes. Como vocês equilibram a preservação dessas raízes com a necessidade de inovação dentro da MPN?
É sempre muito difícil manter esse equilíbrio. Mas a gente acredita que entender de onde surgem esses ritmos e como eles foram se modificando ao logo dos anos, ajuda a não se perder tanto. É importante também que se entenda e enalteça todos os artistas que mantém a tradição viva, como os grupos tradicionais, mestres e mestras que ainda perpetuam os ritmos mais próximos de como começaram. Dentro da vertente do forró, é necessário manter viva a cultura dos trios pé de serra, por exemplo. No coco, dar espaço pras mestras e mestres que perpetuam a cultura do coco de roda, só coco de embolada. Assim, a gente consegue trazer misturas, experimentações musicais, sem apagar ou esquecer das raízes.
4. Existe uma intenção política ou cultural por trás de fortalecer o termo MPN, no sentido de valorizar a identidade nordestina dentro da indústria musical?
Sim, sem dúvida. Fortalecer o termo música popular nordestina nos traz identidade e pertencimento. É uma forma de dizer: ei, minhas raízes são tão fortes que nossa musicalidade tem um termo próprio pra ser reconhecida no mundo.
5. Como você enxerga a recepção do público fora do Nordeste em relação à MPN?Ainda existe um olhar estereotipado ou você sente uma abertura maior para essa diversidade?
Eu sinto que o Nordeste está na moda. Muitos olhares estão voltados para o nordeste nesse momento, mas infelizmente essa visão caricata do que é o nordeste e ser nordestino ainda está enraizado e não acho que é algo tão fácil de quebrar. Porém, tem melhorado bastante. Acredito que encontrar um termo que coloca nossa cultura e musicalidade no centro, faz com que o público de fora comece a enxergar nossa música não apenas como algo marginalizado, mas como tendo seu próprio lugar dentro da música brasileira.
6. As Sabiaras trazem uma estética muito própria, tanto sonora quanto visual. De que forma o grupo traduz esse conceito de MPN na sua identidade artística e nas mensagens que querem passar?
Nós sempre estamos pesquisando e trazendo elementos da cultura popular tradicional nordestina na nossa música. Nas letras, nos ritmos e no movimento político, sempre estaremos mostrando a cara do nordeste, principalmente da nossa Paraíba. O nordeste é imenso, cada estado guarda uma marca só sua, até mesmo no jeito de falar e nossa Paraíba é muito rica culturalmente também. Por isso, tentamos trazer essa cultura popular paraibana em nossas apresentações e em nossa fala. Na parte visual também tentamos trabalhar nos figurinos e no palco elementos da nossa cultura paraibana de forma que a gente não acabe ficando caricatas numa visão reducionista do nordeste.






