Sammliz transforma memória, espiritualidade e paisagem amazônica em novo ciclo artístico com o single “Daqui, em 1976, Acenei Para Você”

Após seis anos sem lançamentos autorais, a cantora paraense inaugura uma nova fase criativa ao revisitar lembranças, deslocamentos e ancestralidade em uma obra que une música, artes visuais e a potência simbólica da Amazônia.

A cantora e compositora paraense Sammliz marca seu retorno aos lançamentos autorais com o single “Daqui, em 1976, Acenei Para Você”, lançado pelo selo Suave.City. A faixa, que também dá nome ao seu próximo EP, representa o início de uma nova etapa artística construída ao longo de um período de introspecção, vivências espirituais e deslocamentos pelo interior do Pará. Mais do que um reencontro com a composição, o trabalho revela uma artista interessada em transformar memória, paisagem e experiência em matéria poética.

O título da canção nasceu da frase “Daqui, em 1976, Acenei Para Você”, intervenção urbana criada pela artista visual paraense Valéria Coelho para a obra Psicografia (2010), instalada no histórico Solar da Beira, no complexo do Ver-o-Peso, em Belém. Embora a inscrição tenha desaparecido com o tempo, ela permaneceu viva na memória de Sammliz, despertando sentimentos contraditórios entre nostalgia, estranhamento e reconhecimento. Essa atmosfera também permeia o processo criativo do EP, cujas melodias e fragmentos de letras surgiram durante longas temporadas em cidades do interior paraense, entre estradas, rios e comunidades isoladas, em uma imersão distante da capital.

Produzida por João Lemos, da banda Molho Negro e parceiro de longa data da artista, a faixa constrói uma paisagem sonora contemplativa por meio da combinação de guitarras, sintetizadores e texturas de ruído. Sammliz explica que buscou traduzir os sons que atravessavam suas viagens: músicas ecoando ao longe, vindas de festas populares, bares e aparelhagens espalhadas pelo interior amazônico, evocando referências dos anos 1980 e 1990 que remetem às lembranças de sua infância e adolescência. Nesse universo, a memória deixa de ser apenas recordação para se tornar um território fluido, onde passado, presente e imaginação se entrelaçam, conduzindo a narrativa de um reencontro que, no fundo, revela uma busca pela própria identidade.

Nome consolidado na cena independente brasileira, Sammliz iniciou sua trajetória ainda na adolescência ao integrar a banda Morganas, um dos grupos femininos pioneiros do rock paraense. Em 2003 fundou o Madame Saatan, projeto que alcançou projeção nacional ao fundir metal, hardcore e elementos da musicalidade amazônica. Após o fim da banda, lançou o álbum solo Mamba (2016), seguido pelos singles “Deusa da Lua (Mulher Perigosa)”, com participação de Dona Onete, “Leviatã Lux” e “Irmã”. O novo single antecede ainda o lançamento de um videoclipe dirigido por Thiago Pelaes, com direção criativa, roteiro e figurino assinados por Laboyoung. Gravado no Bosque Rodrigues Alves, em Belém, o vídeo explora a força simbólica da cultura amazônica ao reunir arquétipos femininos ligados ao encantamento, à ancestralidade e à espiritualidade, tendo a chuva, presença constante na capital paraense, incorporada naturalmente à narrativa visual como mais um elemento da obra.