Mayana Neiva: “Voltar às minhas raízes foi o maior renascimento da minha trajetória”

Em entrevista ao Papo Pop, a atriz, cantora, escritora e cineasta paraibana reflete sobre arte, identidade, espiritualidade e o reencontro com o Nordeste como força criativa

Antes de conquistar prêmios internacionais, dirigir documentários, lançar um álbum autoral e percorrer o Brasil com um espetáculo que celebra as mulheres nordestinas, Mayana Neiva já carregava uma inquietação que atravessaria toda a sua trajetória. A atriz paraibana, conhecida por trabalhos marcantes na televisão, no cinema e no teatro, nunca se permitiu permanecer no mesmo lugar artístico. Reinventar-se tornou-se parte de sua identidade.

Com uma carreira consolidada dentro e fora do país, incluindo anos de formação artística e espiritual nos Estados Unidos, Mayana vive hoje um momento que define como o mais autêntico de sua caminhada. Ao Papo Pop, ela revelou que o retorno ao Brasil e, sobretudo, o reencontro com a Paraíba transformaram profundamente sua maneira de criar.

“Viver de arte é um desafio. A natureza artística requer muitas coisas, e uma delas é a reinvenção. Sempre fui uma pessoa inquieta, que queria se desafiar e renascer”, afirma.

Esse renascimento ganhou forma em diferentes linguagens. A música, adiada durante anos, finalmente encontrou espaço durante a pandemia, quando lançou o álbum Tá Tudo Aqui Dentro. O projeto evoluiu para um espetáculo que percorre o país celebrando as mulheres nordestinas por meio do forró e do cordel, numa experiência que mistura música, poesia e pertencimento.

“Sempre gostei de cantar, mas só durante a pandemia tive coragem de lançar meu primeiro trabalho musical. Hoje viajo o Brasil com um show em homenagem às mulheres nordestinas. Tem sido uma aventura deliciosa”, conta.

A inquietação artística também a levou para um território ainda mais íntimo. Ao dirigir o documentário José, sobre a história de seu avô, Mayana descobriu na direção cinematográfica uma extensão da própria memória.

Segundo ela, contar essa história era quase um compromisso afetivo.

“Eu sabia que, se eu não contasse essa história, ninguém contaria. E fui profundamente transformada durante esse processo. Esse documentário representa um renascimento depois de tantos anos vivendo fora do Brasil.”

Mais do que uma mudança de linguagem, a artista entende que cinema, música, literatura e teatro dialogam com um mesmo propósito: reconectar pessoas às suas origens.

“O documentário é um desses meios. O disco também. O show também. A palestra também. Todos nascem do mesmo desejo de conexão com a minha raiz.”

A força simbólica do Nordeste

Foto: divulgação.

Depois de morar em São Paulo, Nova Iorque e Califórnia, Mayana afirma que a distância fortaleceu seu vínculo com a cultura nordestina.

Foi justamente longe da Paraíba que ela compreendeu a dimensão simbólica das manifestações populares que hoje ocupam o centro de sua produção artística.

“Quando a gente mora fora, sente ainda mais o valor da nossa cultura. Toda vez que subo ao palco para cantar um forró ou recitar um cordel, entro num campo simbólico que vai além de mim. Parece que todo nordestino desperta junto. Existe uma força coletiva que nos acende”, reflete.

Ela acredita que o Nordeste atravessa um momento importante de valorização cultural, mas defende que esse reconhecimento precisa começar pelos próprios nordestinos.

“O Nordeste é um dos maiores berços culturais do Brasil e deveria ser nosso primeiro orgulho. Gostaria que nós, paraibanos, consumíssemos mais os nossos artistas, frequentássemos mais os teatros, os shows, lêssemos os livros produzidos aqui. Muitas vezes só valorizamos alguém quando recebe reconhecimento nacional.”

Arte, silêncio e inteligência emocional

Foto: divulgação.

Ao longo da carreira, Mayana também mergulhou no estudo da meditação e do autoconhecimento. Formada em Letras, com pós-graduação em Gestão Emocional nas Organizações pelo Hospital Israelita Albert Einstein e especializações em práticas contemplativas, ela afirma que cuidar da mente foi essencial para permanecer na arte.

Segundo a atriz, o sucesso e o fracasso caminham lado a lado na vida artística.

“Quem escolhe viver de arte precisa aprender a suportar muitos ‘nãos’, muitas rejeições e muitas incertezas. Sem inteligência emocional, fica muito difícil atravessar esses altos e baixos”, explica.

Foi dessa vivência que nasceu a palestra A Felicidade Não Está Lá Fora, apresentada em diferentes cidades brasileiras. Nela, Mayana reúne experiências pessoais, estudos científicos e práticas contemplativas para provocar uma reflexão sobre autenticidade e bem-estar.

“A felicidade genuína não nasce do que conquistamos externamente. Ela brota quando conseguimos viver de forma verdadeira, respeitando nossa essência e nossos próprios tempos.”

O retorno para casa

 

Se durante a juventude o desejo era conquistar o mundo, hoje Mayana afirma viver um movimento oposto: o de fincar raízes.

Ela passou meses no sertão paraibano gravando clipes, produzindo seu documentário e aprofundando a conexão com a terra onde nasceu.

“Hoje me sinto uma artista muito mais sólida porque me reconectei com minhas origens. Existe uma força enorme quando voltamos para aquilo que somos de verdade. Foi nas minhas raízes que encontrei um novo lugar para criar”, diz.

Essa busca pela essência sintetiza a artista que Mayana Neiva se tornou. Entre o cinema, a música, a literatura, a atuação e a espiritualidade, todas as suas linguagens convergem para um mesmo território: o da identidade.

Mais do que interpretar personagens, ela passou a narrar a própria história. Ao transformar suas raízes em matéria-prima para a criação, Mayana encontrou na arte não apenas um caminho de expressão, mas também um exercício permanente de reconciliação consigo mesma e com a terra que a formou.