A televisão vive um momento de profundas mudanças. Novas plataformas, redes sociais e diferentes formas de consumir conteúdo transformaram a relação entre o público e as emissoras. Mas, mesmo diante dessas mudanças, existe algo que continua sendo fundamental para qualquer veículo de comunicação: a capacidade de criar identificação.
Uma das grandes questões da televisão aberta atualmente é entender como voltar a conversar com um público que deseja se sentir representado. As pessoas não querem apenas assistir à televisão; elas querem se enxergar nela. Querem ver suas histórias, suas culturas, seus sotaques, suas músicas e suas realidades ocupando espaço na tela.
Nesse sentido, uma possibilidade estratégica para a Globo recuperar parte do seu espírito popular seria resgatar a essência do “Esquenta”, não necessariamente como uma simples repetição do passado, mas como uma releitura moderna de um conceito que funcionava: uma televisão feita para celebrar a diversidade brasileira.
O “Esquenta” tinha como grande diferencial transformar o cotidiano do brasileiro em protagonista. Era uma atração que aproximava artistas consagrados de novos talentos, misturava diferentes ritmos, valorizava manifestações culturais e dava visibilidade a personagens que representavam a pluralidade do país.
O Brasil é muito maior do que os grandes centros urbanos. Existe um país inteiro cheio de histórias esperando para ser contado: os artistas independentes, as comunidades, os mestres da cultura popular, os movimentos culturais, as festas tradicionais e as pessoas comuns que carregam trajetórias extraordinárias.
A televisão tem uma responsabilidade histórica de revelar esses “vários Brasis”. Quando uma emissora abre espaço para diferentes vozes, ela não apenas aumenta sua audiência, mas fortalece sua relevância cultural. O público cria vínculo quando percebe que aquele espaço também pertence a ele.
O desafio da programação dominical atualmente é justamente encontrar um equilíbrio entre entretenimento, emoção e representatividade. Durante muitos anos, a Globo construiu sua força ao contar histórias brasileiras e aproximar diferentes públicos. Recuperar essa conexão passa por entender que popularidade não significa perder qualidade; significa comunicar de forma mais ampla, humana e verdadeira.
Um novo “Esquenta” poderia ser uma grande viagem pelo Brasil contemporâneo: percorrer estados, descobrir talentos, mostrar culturas regionais, promover encontros musicais e revelar histórias que emocionam. Um programa que dialogue com a juventude, com as novas tendências digitais e, ao mesmo tempo, preserve a memória cultural do país.
Mais do que trazer um programa de volta, a proposta seria recuperar uma filosofia de televisão: aquela que olha para as pessoas, valoriza suas trajetórias e entende que o Brasil não é feito apenas de grandes celebridades, mas também de milhões de histórias anônimas que merecem ser vistas.
Em um cenário de disputa pela atenção do público, a maior inovação pode estar justamente em voltar a fazer aquilo que a televisão sempre fez de melhor: representar o povo brasileiro.








